Há cerca de duas centenas de pessoas formados em musicoterapia em Portugal. No entanto, esta ferramenta que usa a música como recurso terapêutico ainda não se encontra regulamentada.
“Talvez tenhamos mais de 200 pessoas formadas em musicoterapia em Portugal”, mas falta um enquadramento legal para que “as pessoas consigam confiar” em quem se dedica à atividade, afirma ao 24Horas Ana Esperança, presidente da Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT). “Estamos nessa luta”, aponta.
Os profissionais desta área destacam o papel que a música pode ter na recuperação de pacientes com Alzheimer e autismo ou no apoio à saúde mental. Ana Esperança sugere que esta terapia é adequada para “qualquer idade, género ou estilo de vida”. Porém, os adultos mostram-se mais resistentes, considera, pois têm mais dificuldade em envolverem-se nestes processos “mais didáticos, mais livres, mais fluídos, menos formais. Temos dificuldade em brincar. É quase como se perdêssemos essa competência, que é o ‘play’, que não é necessariamente um brincar infantilizado, mas permitirmo-nos estar no lúdico, o que facilita a autoexpressão”.
Há um grupo que se destaca. De acordo com a dissertação de mestrado em Psicologia de Inês Torrão Pentieiros, que fez o mapeamento da musicoterapia no país, os profissionais deste setor indicam que intervêm maioritariamente em pessoas com perturbação do espectro do autismo (67%). Segue-se o grupo de pessoas de “meia-idade” (22%). A presidente da APMT complementa que a musicoterapia é, maioritariamente, “divulgada por ser eficaz na intervenção com crianças com espetro do autismo, em idosos com demência ou em pessoas com multideficiências, doença mental grave”.
O musicoterapeuta “é uma pessoa que, no fundo, tem alguns conhecimentos de psicologia, psicopatologia, comportamento humano, educação e tem, ao mesmo tempo, conhecimentos de música. A musicoterapia não se limita à soma da psicologia com música”, descreve Ana Esperança. A abordagem numa sessão é personalizada, adaptando-se às necessidades de cada um. “A música que me acalma, pode criar ansiedade noutra pessoa. Não há receitas. Nós não trabalhamos com estilos musicais ou com efeitos específicos. Trabalhamos com aquilo a que chamamos reportório da afetividade da pessoa, que é aquilo que é significativo para o cliente, a sua história sonora musical, o seu percurso sonoro de vida”, prossegue a presidente da APMT.
Fundada em 1996, a APMT continua a bater-se pela regulamentação da profissão. Com esse propósito, foi entregue uma petição na Assembleia da República, que chegou a ser discutida em plenário, em 2020. Nem as mais de 4000 assinaturas levaram a que houvesse desenvolvimentos legislativos nesta matéria. Entretanto, a Universidade Lusíada de Lisboa está a lecionar um mestrado dedicado à disciplina. “A musicoterapia vai crescendo em Portugal, independentemente de não ter enquadramento legal. Há cada vez mais procura”, considera a presidente da associação. No entanto, remata Ana Esperança, “seja do ponto de vista do utente, dos direitos do musicoterapeuta ou das instituições”, é importante avançar com um processo legislativo.
Texto: Beatriz Dias