Um evento, financiado com dinheiro público, como o que decorreu durante dois dias em março na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, é agora uma miragem nos Estados Unidos de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos assinou, logo no arranque do seu mandato, uma ordem executiva que proíbe a subvenção de qualquer iniciativa que promova a diversidade, igualdade e inclusão.
A Feira de Empregabilidade LGBTI+, apoiada pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género no âmbito do programa Portugal Mais Igual e implementado pela associação ILGA Portugal, pretendia disponibilizar ofertas de trabalho para pessoas LGBTI+ e debater a inclusão e igualdade no mercado de trabalho. Ao longo de dois dias, responsáveis de 10 empresas partilharam com dezenas de participantes as suas experiências profissionais e mostraram por que as suas empresas promovem estas políticas, agora descritas como “woke” pelos círculos mais conservadores.
No evento organizado pela ILGA Portugal participaram empresas como Ikea, Airbus, Lush, Fujitsu e BNP Paribas, a par de entidades públicas. Nem sinal de empresas norte-americanas ou nacionais. “Em Portugal, o tecido é mais composto por pequenas e médias empresas. Há empresas que apostam mais na diversidade e outras que são mais conservadoras. É um trabalho que estamos a fazer, consecutivamente, de chegar às empresas e formá-las e ajudá-las a entender que a diversidade é importante para a construção de um clima saudável e digno para as pessoas LGBTI+ e para toda a gente”, justifica Daniela Bento, presidente da ILGA Portugal, em declarações ao 24 Horas.
Luís Pinhão, responsável por uma equipa financeira da Airbus em Portugal, ilustra como é que a sua empresa “abraçou” as políticas de inclusão. Casado com uma pessoa do mesmo sexo e há seis anos em processo de adoção de uma criança, na primeira entrevista de emprego na Airbus foi claro quanto à possível parentalidade. “Disse que podiam-me telefonar no dia seguinte, pelo que teria de entrar em licença de parentalidade. Responderam-me imediatamente que isso não era questão. Com isto, nós damos mais de nós à empresa. Sentimo-nos perfeitamente integrados.”
A Airbus, além de apoiar iniciativas dos grupos de trabalhadores Pride@Airbus (LGBTI+) e Adapt (pessoas com deficiência), organiza ações de formação com os colaboradores sobre diversidade, “micro-agressões” ou “bias” [enviesamentos ou preconceitos].
A empresa aeroespacial e de defesa foi mais longe. A par das casas de banho para mulheres e para homens, passou a haver casas de banho “no gender” nos escritórios do Parque das Nações, em Lisboa, onde trabalham cerca de mil pessoas. “No início, ouvíamos alguns comentários de resistência, mas depois fomos percebendo que, estando implementadas, é algo que passa a ser entendido. Não é comum que haja casas de banho ‘no gender’ em empresas”, prossegue Luís Pinhão, a propósito da integração de pessoas transgénero ou não-binárias. Enquanto isso, nos Estados Unidos de Trump, por ordem executiva, só são reconhecidos dois géneros: o masculino e o feminino.
A agenda “anti-wokismo” da nova administração norte-americana impactou o setor empresarial. Gigantes como a McDonald’s, Amazon, Google, Meta ou Deloitte, anunciaram nos últimos meses a reformulação ou o fim dos programas ou políticas que pretendiam promover a diversidade nas organizações. Entre as medidas suspensas encontram-se o cumprimento de quotas de empregados afroamericanos, iniciativas no Mês do Orgulho LGBTI+, ações de formação ou apoio a pessoas transgénero.

Apesar de ainda não detetar uma mudança nas políticas de diversidade das multinacionais a operar em Portugal, a presidente da ILGA alerta que “há pessoas que estão a ficar com receio no seu próprio local de trabalho como consequência direta das políticas de Trump. Estamos a falar de grandes empresas que, durante uma determinada altura, promoveram intensamente as questões de diversidade e inclusão. Agora, as pessoas têm receio”, aponta Daniela Bento.
Um estudo da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, com dados de 2023, indica que 18% dos portugueses LGBTI+ já sentiram algum tipo de discriminação quando procuram um emprego. A média europeia situa-se nos 19%.
A dirigente associativa sustenta que os portugueses LGBTI+ enfrentam problemas nas entrevistas de emprego e no acesso ao posto de trabalho: “Existem muitas pessoas trans e não-binárias que são relegadas para cargos em que não são visíveis, precisamente para não serem visíveis, ou então pessoas lésbicas, gays e bissexuais que não podem falar das suas relações em contexto laboral”.