A inteligência artificial (AI) está cada vez mais presente no nosso dia a dia — dos smartphones aos carros, da medicina à arte. Nuno Mateus-Coelho, especialista em AI, identifica os desafios e os impactos que esta tecnologia terá nas nossas vidas. Doutorado em Informática, professor de Cibersegurança na Universidade Lusófona e diretor do Laboratório de Cibersegurança LAPI2S, Nuno Mateus-Coelho é um dos nomes mais conhecidos em Portugal nas áreas da inteligência artificial e da cibersegurança.
Como definiria a IA?
Há duas definições: a simples e a clássica. Na definição simples, a IA é uma ferramenta criada para fornecer orientações ou auxiliar as pessoas nas tarefas que são monótonas ou nas quais precisam de ajuda. Na definição clássica, a IA é a automatização das tarefas com uma aprendizagem recorrendo a técnicas de ‘machine learning’. Ou seja, o sistema identifica padrões, aprende através de dados recolhidos e toma decisões sem nenhuma intervenção humana. Quanto mais dados tiver acesso, mais exatas se tornam as suas decisões.
Onde é que a IA pode ajudar um cidadão comum?
Pode ajudar em tudo. O cidadão comum vive num mundo apressado. A IA vem ser a nossa assistente. Podemos falar com o computador ou o telemóvel e dizer o que precisamos e com um grau de certeza muito grande. Ela vai marcar as nossas consultas, enviar e-mails, gerir a nossa agenda, receber documentos do médico e até dizer-nos o que está escrito nesse documento. Para uma pessoa comum o principal objetivo é facilitar a sua vida.
A IA pode ter os seus riscos apesar de ter um grande lado positivo?
Sim, eu vejo alguns riscos na IA. Ao início, as pessoas viam a IA como uma assistente e agora recorrem-lhe como um substituto. Ficamos com tempo para jogar futebol, para atividades lúdicas, para outras tarefas, mas tira-nos conhecimento. Dou o exemplo dos meus alunos. Já não são eles que estão a programar, é um computador. Eles só estão a juntar as peças. Quando eu lhes peço uma tarefa complexa no final da licenciatura eles têm a mesma dificuldade que um aluno de 1.º ano de há oito anos. Nós dependemos destas tecnologias. Estamos a ficar especialistas a falar com a máquina, mas se um dia houver um desastre tecnológico e a máquina desaparecer nós não vamos saber fazer a maior parte das coisas.
A inteligência artificial não fará com que muitas pessoas percam o seu emprego?
Concordo parcialmente. As pessoas que estão expostas a essa realidade estão nos últimos 15 anos de descontos. Exceto algumas profissões como professores e médicos, um cidadão comum chega aos 60 anos e já encontra muitas dificuldades profissionais. Aconteceu com o rádio, com a televisão, com os jornais e com a internet. A internet não provocou a perda de empregos nos jornais. Veio foi mudar a forma como os jornais trabalham. Deixou de haver tipógrafo, mas agora temos um engenheiro de software. A sociedade vai-se readaptando.
Não é perigoso os burlões terem acesso à IA para aperfeiçoar as burlas?
É, sim. A evolução das tecnologias de IA tornou mais simples criar imagens, vídeos e vozes realistas. Na burla ”Olá pai, olá mãe” é muito mais fácil enganar as pessoas. Os mais idosos, por não conseguirem acompanhar esta evolução tecnológica, ficam mais vulneráveis a este tipo de golpes e, se forem abordados, caem mais facilmente. Por enquanto ainda se consegue distinguir que imagens são criadas com IA, mas daqui a dois anos já não.
Que conselhos daria às pessoas para evitarem ser enganadas?
Para combater estas burlas e estarmos mais seguros, eu aconselho que haja uma palavra secreta entre família para confirmar quem está a falar. Principalmente para os mais idosos. A pressão do tempo ajuda-os a ser enganados mais facilmente. Se a pessoa não souber qual é a palavra segura, desconfie. Já assisti a situações onde as pessoas nem fazem perguntas para confirmar quem está do outro lado. O ideal é copiar o que resulta nas outras áreas da sociedade. Os sistemas de segurança usam uma palavra secreta, nós devemos fazer o mesmo e, idealmente, mudá-la todos os anos.