PRESIDENTE DOS BOMBEIROS INDIGNADO COM AUMENTOS DE TRÊS EUROS

Portugal é sempre devastado por incêndios florestais extremos, durante o verão. De acordo com um relatório divulgado pela Comissão Europeia, arderam em 2024 mais de 147 mil hectares, num total de 735 fogos, sendo este o número mais alto dos últimos seis anos.

Já um estudo sobre o Estado do Clima na Europa, elaborado pelo Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copérnico (C3S​) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), dá conta de que, só numa semana de setembro, foram dizimados pelas chamas 110 mil hectares (1100 km2) no País, o equivalente a cerca de um quarto da área queimada em toda a Europa em 12 meses.

Mas o que está Portugal a fazer para preparar o combate às chamas e minimizar o impacto dos fogos no verão, a altura mais crítica do ano? “Em princípio, o que estará a acontecer é aquilo que acontece nos demais anos”, lamenta o presidente da Liga dos Bombeiros de Portugal (LBP), António Nunes, em entrevista exclusiva ao 24Horas. Apesar de reconhecer o trabalho de várias entidades, como a GNR, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e das câmaras municipais em questões relacionadas com limpezas de terrenos e na abertura de caminhos florestais, o dirigente assume que “não há qualquer inovação em relação aos anos anteriores”.

Questionado sobre o nível de preparação do País para o combate aos fogos, António Nunes diz que “Portugal está preparado para combater os incêndios florestais, do ponto de vista da sua experiência e da qualidade dos seus combatentes”. O problema, para o presidente da LBP, não está no combate aos fogos, mas, sim, na questão da simultaneidade: “Quando temos 500, 400, 300 ou 150 ignições, se houver uma que escape, temos um grande incêndio.”

Em matéria de prevenção, António Nunes realça que “há muita coisa que pode ser feita e não foi” e dá como exemplo a criação de “um comando nacional para os bombeiros”. A LBP acredita que ter bombeiros a liderar os bombeiros iria dar uma “dinâmica completamente diferente ao planeamento, à organização e gestão de meios”.

A VERDADE SOBRE O REFORÇO FINANCEIRO

Sobre o reforço financeiro e de meios previsto na Diretiva Operacional Nacional (DON) para este ano, António Nunes tem sérias dúvidas que assim seja. “Disse-se uma meia-verdade, como se fosse uma verdade.”

Ao 24Horas, o responsável explica que, de facto, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) aumentou em 2,3% (correspondente ao da taxa de inflação) o valor da diretiva financeira, que também se aplica aos fogos, mas a decisão está longe de agradar. Os valores das viaturas, por exemplo: “Se, porventura, tiverem de ser repostas, por terem um acidente, já tinham um valor errado na diretiva de 2024. E mantêm o valor errado em 2025.”

António Nunes sublinha ainda o aumento de 11 por cento previsto para subsidiar diariamente os bombeiros voluntários, que estejam em permanência no combate às chamas, mas revela que não é referida a verdadeira dimensão do valor: “Fala-se de um aumento de 11% para 24 horas. É verdade, mas não se diz que o valor é de 3 euros e 10 cêntimos, quando o valor à hora do ordenado mínimo nacional é de 5 euros e 2 cêntimos.”

Desiludido, o dirigente acusa o Estado de contratar “bombeiros voluntários para estarem em permanência nos quartéis, disponíveis para atacarem os incêndios florestais”, e de lhes pagar 12 cêntimos à hora. “A situação é inaceitável.”

A INFLUÊNCIA DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

António Nunes realça a existência de “uma profunda alteração da violência dos incêndios” e da influência das “alterações climáticas no comportamento dos fogos”. O presidente da LBP refere que estas variantes não têm sido tidas em conta pelos políticos da Europa e de Portugal na organização do combate às chamas.

Além disto, António Nunes salienta que as fortes tempestades ocorridas nos últimos meses e os fortes períodos de chuva podem influenciar negativamente o combate aos fogos: “As condições atmosféricas fazem crescer a vegetação, principalmente a fina, que é onde às vezes nasce o incêndio.” Este crescimento é “problemático”, porque poderá fazer com que a propagação dos incêndios ocorra com uma maior velocidade.

“É uma preocupação, de facto, e quem limpou os terrenos em abril, por exemplo, provavelmente vai chegar a junho ou julho com os terrenos com vegetação seca. E isso é prejudicial para o combate”, garante o presidente da Liga dos Bombeiros Portuguesas. António Nunes evidencia também que, mesmo em terrenos limpos, pode haver o risco de propagação do fogo, visto que as chamas passam de “árvores para árvores e podem chegar mesmo a atingir casas”, se existir uma influência negativa de ventos fortes.

É necessário, assim, defende o responsável máximo do bombeiros portugueses, “pensar nos incêndios de outra forma”. “Não sei se a Europa inteira está preparada para responder, de forma muito diferente, àquilo que é uma evolução das condições do combate.”