São largas dezenas de sem-abrigo que fazem do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, um refúgio improvisado. As circunstâncias que os levam a pernoitar por ali são diversas.
“Sabe onde é o Inferno? É lá que vou buscar comida, à Gare do Oriente”, começa por contar um homem, oriundo do leste da Europa, com 68 anos de idade. O homem, que prefere não dizer o seu nome, refere que foi parar à rua depois de uma ida ao hospital. “Fui a São José e quando voltei não tinha casa, estavam lá outras pessoas”.
Segundo o seu relato, imigrou há muitos anos para Portugal. Arranjou trabalho e diz estar à espera de reforma ou de algum apoio social para sair da rua. “Mas aqui nada funciona!”, queixa-se.
Enrolado a um cobertor, com um saco onde tem todos os seus pertences, o sem-abrigo está encolhido numa cadeira, na zona das partidas. Só que diz passar frio e ser posto na rua a determinada hora. “Inventaram aqui regras para porem as pessoas fora, à noite. Acabo por dormir ali fora”.
O 24 Horas pergunta-lhe pela família. Percebe-se que não tem qualquer laço familiar. “Porque é que vocês estão preocupados com a família?”, insurge-se, perante a questão. “Tenho de arranjar maneira de andar sozinho. O que é que eu tenho com a minha família… é uma confusão”.
Este homem poderá ser o mesmo que poucos dias após a reportagem do 24 Horas foi encontrado morto. Relatam as notícias que um sem-abrigo, de 68 anos, foi encontrado sem vida numa das casas de banho masculinas do aeroporto, no dia 28 de maio. Não é sabida a causa da morte do homem que foi levado pelas autoridades para autópsia. Pedimos informações à PSP, fazendo a descrição física do sem-abrigo, mas até ao momento não obtivemos resposta.
Noutro recanto das partidas jaz Bruno, 26 anos, toldado pelo cansaço. Meio a dormitar, acaba por acordar e falar ao 24 Horas. “Sou cabo-verdiano e imigrei para Portugal. Aqui no aeroporto estou quase há um mês”. Conta que andou muito durante o dia, em busca de alimentos. “Não bebi, estou cansado. Andei muito, fui a Xabregas para ir buscar comida e tive de voltar a subir isto tudo”.
A separação da namorada e a falta de trabalho foram os principais motivos desta situação. “Estou na rua por causa de uma dama. Chateei-me com ela e preferi sair”. O trabalho é sazonal. “Trabalhava num hotel, na Ericeira, mas só no verão”.
Antes de se instalar no aeroporto Bruno passou pela Gare do Oriente. O ambiente era caótico e chegou a ser agredido. “Aqui consigo dormir e organizar-me um pouquinho. Aqui tenho mais oportunidades e sou menos maltratado e custa menos pedir às pessoas”.
O rapaz revela, ainda, ter sido alvo do racismo de outros sem-abrigo na Gare do Oriente. “Sou preto e aqui estou mais seguro”. A seu lado tem um pedaço de pão e uma lata de refrigerante. “Apanho no lixo. O lixo aqui no aeroporto tem muitas coisas”. A família, garante, abandonou-o à sua sorte.
O pior acontece ao princípio da madrugada. “À uma da noite mandam-me embora e fico a dormir no parque de estacionamento.” No local, agentes da PSP confirmam: “Por volta da meia-noite começa a ser feito um varrimento. Mas muitos, depois disto, quando já não nos veem, acabam por voltar a entrar”. Uma autêntica luta do rato e do gato já que, durante o período entre as 00:30 e as 03:30 só podem permanecer dentro do aeroporto passageiros com bilhete válido. E estas pessoas, a quem tudo falta, querem dormir, ou pelo menos descansar, abrigadas.
Em resposta oficial, por email, a PSP dá o dito pelo não dito. “Não existe qualquer procedimento destinado à remoção sistemática de pessoas em situação de sem-abrigo”, afiançam. “O que se pratica, de acordo com padrões adotados noutros aeroportos europeus, é um procedimento de segurança que se realiza durante os períodos de menor atividade, tendo em vista a limpeza e manutenção das instalações, a recolha de objetos abandonados, a verificação de espaços sensíveis e o cumprimento da legislação aplicável a infraestruturas desta natureza”.
O choque imposto pelos anteriores pontos de reportagem impõe uma pequena pausa para recompor as ideias. Estamos sentados num banco, no exterior, junto às partidas. Um rapaz aborda-nos e pede um cigarro. Acedemos. Perguntamos se dorme por ali e, também ele, tem uma história para contar. “O meu nome é Ruben e tenho 28 anos. Sou da Apelação, em Loures, mas os meus pais morreram num desastre de carro e deixaram dívidas. Tinha casa, mas as finanças, para rebater o dinheiro que os meus pais deviam, tiraram-me tudo”.
Ruben trabalhava numa sucata, mas uma injeção de penicilina mal dada, na perna esquerda, retirou-lhe força e mobilidade. “Deste lado não tenho rabo, por isso é que me sento de lado. A injeção apanhou-me três artérias e estive dois anos e meio às portas da morte. Saí do hospital, fui para casa dos meus pais, mas depois houve uns problemas e vim para a rua”.
Foi já na rua que recebem a pior notícia, da pior forma. “Foi a polícia que me disse que os meus pais tinham morrido. Foram em viagem e bateram contra um camião.”
Ruben já passou por vários pontos da cidade, mas acabou no aeroporto onde, garante, “é mais seguro porque aqui não nos fazem mal. Fora do aeroporto podem roubar-nos, bater-nos, muita coisa. Aqui não porque há câmaras e segurança”.
O rapaz vai fazendo a sua vida, de dia e de noite, no aeroporto. Diz dormir numa tenda, ali perto. “Faço a minha vida aqui dentro. Ajudo as pessoas, vou buscar as cadeiras de rodas, se as pessoas perguntam indico onde são os check ins, depois viro as costas. Se me quiserem dar uma moedinha, dão. Se não quiserem são agradecidos na mesma. Mesmo que não me deem eu não fico chateado, isso depende do coração de cada um”.
Além destes pequenos trabalhos, Ruben alimenta-se “aqui nos cafés, peço comida e muitos dão-me. Como e bebo”. Alternativas para sair da rua já experimentou, mas nada correu como ele queria. “Tenho más experiências. Fiquei em albergues e, quando faltavam coisas, diziam que tinha sido eu, porque era o mais novo. Prefiro estar com Deus”.
Ainda assim, o jovem quer levantar cabeça. “Já pedi trabalho aqui no aeroporto, nas limpezas, porque não posso fazer outros esforços devido ao problema na perna. Disseram-me que assim que saia alguém me contactam para eu ir trabalhar”, remata esperançoso.
No aeroporto encontrou o seu melhor amigo: Mendes. O rapaz, angolano, de 21 anos, imigrou para Portugal há dois anos, incentivado por uma tia materna. A tia acabou por imigrar para a Holanda e nunca mais que saber dele.
Mendes tinha trabalho e um quarto. “Estava a trabalhar em fábricas de transformação de tomate, em Benavente. O contrato acabou e perdi o trabalho, onde ganhava quase 1000 euros. Na altura, pagava 250 pelo quarto e o dinheiro chegava bem. Quando deixei de trabalhar deixei de ter dinheiro para pagar o quarto”.
O jovem conta que está legalizado em Portugal, mas que perdeu os documentos, incluindo o título de residência, o que lhe dificulta arranjar um novo trabalho. Equacionou ir para casa de amigos, que tem por cá, antes de ir parar à rua. “Os senhorios onde eles estão não deixam ficar mais gente. Até agora não consegui mesmo ter ajuda”.
Ruben e Mendes andam sempre juntos. Mendes também pede esmola e comida nos restaurantes do aeroporto. “Consigo comer aqui, mas não tão bem assim”. A segurança do local foi um atrativo para o angolano. “Não saio daqui. Aqui é mais seguro”.
Os pais de Mendes estão em Angola e não sabem da sua situação. Apenas a tia que o estimulou a imigrar sabe de tudo, mas nada faz. “Ela diz que vem a Portugal, mas nunca mais voltou. Estou sozinho”. Ainda assim, tem uma luz a acender-se no fundo do túnel: “Tenho de arranjar emprego e um amigo disse-me, há poucos dias, que há um senhor a precisar de alguém para trabalhar no campo”.