O 24 Horas foi ao encontro da população em situação de sem-abrigo, na cidade de Lisboa. Acompanhámos as quatro voltas diárias que as carrinhas de distribuição de ceias, da Comunidade Vida e Paz, fazem, todos os dias do ano. Encontrámos alcoolismo, adições, doença mental e relatos de roubos e violência.
Paulo Andrade, 57 anos, também caiu na rua. “Pode acontecer a qualquer pessoa, eu tinha uma vida confortável”. O divórcio associado a uma situação de desemprego deixou-o sem possibilidades de ter um teto e alimentar-se. Encontramo-lo na Gare do Oriente, onde vai buscar comida às carrinhas.
Junto aos registos centrais, no Marquês de Pombal, outra tenda e um casal. Ele trabalha. Mesmo assim não conseguem pagar uma renda de casa. Procuram quartos mas como têm dois filhos são recusados. “Assim que dizemos que temos os miúdos dizem logo que não”, desabafa o homem, que prefere manter-se no anonimato.

As crianças, de 10 meses e três anos, foram entregues pelo casal a uma instituição. “Não podemos ter os meninos a dormir na rua mas, todos os dias, vamos visitá-los”. Nos meses bons, quando faz horas extra e fins de semana, consegue um salário entre os 1100 e os 1200 euros. “Tínhamos casa, pagávamos 700 euros mas o senhorio aumentou a renda para 1200, tivemos de vir para a rua”.
Ensanguentado e com a roupa do corpo está Mário Fernandes, 46 anos. Está na rua desde os 40 depois de os pais terem morrido um desastre de carro. “Na altura já andava na droga. Agora tomo a metadona mas meti-me no álcool, bebo três litros de vinho por dia”, confessa.
Refere ter caído para justificar as mazelas no corpo. Os voluntários da Comunidade Vida e Paz oferecem-lhe toalhitas desinfetantes para limpar as feridas. “Quero sair da rua”, pede, com um olhar insistente. Deixam-lhe um cartão com a morada do Espaço Aberto ao Diálogo, onde poderá encontrar apoio.
Richard, brasileiro, 21 anos, mora na rua há três anos. Fui expulso de casa, pelo pai, aos 18 anos. É na zona de Sete Rios que pernoita. Queixa-se da falta de comida e relata cenas de violência. Garante que não se pode confiar em ninguém.

Aos que dormem na rua juntam-se os que improvisam abrigo em carros ou casas devolutas. Também esses entram nas estatísticas da população em situação de sem-abrigo que assim aumenta para, segundo a autarquia, 3378 indivíduos.
“Maradona”, é assim que gosta de ser chamado, dorme ao relento. Mostra uma solidariedade impar. Após ter ido buscar uma ceia à carrinha corre a entrega-la a um idoso, que dorme escondido dentro de caixas de papelão. “Já comi hoje, amanhã logo se vê”.
Gostava de sair da rua, mas não consegue arranjar trabalho. Os anos foram passando. A imagem degradou-se, não tem dentição. Assim acontece. “Quando mais tempo ficam na rua, pior. Acontece até, alguns que não tinham consumos, passarem a beber ou a consumir drogas. Outros começam a desenvolver problemas de saúde mental. Quanto mais depressa chegarmos à pessoa melhor”, resume Céu Salgueiro, membro da direção da Comunidade Vida e Paz e também voluntária. “Estarem anestesiados é a única forma que encontram de enfrentar a vida desta maneira”.