“O CORPO É TEMPORÁRIO MAS A ESSÊNCIA NÃO MORRE”

Manuel Sans Segarra é médico e autor do livro ‘A Supraconsciência Existe – Vida depois da Vida’. O antigo professor universitário espanhol começou a estudar este tema depois de vários pacientes lhe terem relatado experiências de quase morte. Hoje, é uma referência no estudo da consciência e daquilo que poderá existir para lá da morte

O que o levou, sendo médico de formação científica tradicional, a estudar temas como a supraconsciência e a vida depois da morte?
Sempre fui um homem da ciência — cartesiana, newtoniana, baseada na observação e na lógica. Ensinava os meus alunos a ver o corpo humano como uma máquina biológica. Mas havia algo que me inquietava profundamente: a morte. Como médico e como ser humano, queria entender o que nos espera do outro lado e libertar-me do medo do fim. Um dia, atendi um paciente que tinha estado clinicamente morto. O que ele me descreveu, com clareza e serenidade, não cabia em nenhum manual de medicina. Comecei a investigar. Não como místico, mas como cientista.

E o que encontrou nessa investigação?
Deparei-me com centenas, depois milhares, de relatos de pessoas que passaram por experiências de quase-morte. Todas descreviam vivências estruturadas, lúcidas, fora do corpo, em contextos clínicos em que não havia qualquer atividade cerebral. Isso fez-me questionar: será que a consciência depende mesmo do cérebro? Ou existirá algo mais?

É aí que entra a ideia de supraconsciência. Pode explicar o conceito?
Claro. Normalmente falamos de consciência como a nossa perceção da realidade: saber onde estamos, o que sentimos, o que pensamos. Essa é a consciência local, dependente do cérebro e da sua atividade bioquímica. Mas o que investiguei aponta para outra dimensão: uma consciência superior, que não precisa do cérebro para existir. Chamei-lhe supraconsciência. Ela manifesta-se, por exemplo, em pessoas clinicamente mortas, que relatam experiências verificáveis tais como ouvir conversas na sala de operações ou descrever detalhes da reanimação a que foram sujeitas. Se não há atividade cerebral, como explicar esta perceção? A única hipótese plausível é a existência de uma consciência não local, independente do corpo.

Está, então, a dizer que essa supraconsciência sobrevive à morte física?
A minha conclusão é clara: a nossa identidade profunda, essa supraconsciência, continua a existir após a morte do corpo.
Não estou a falar de fé ou crença, mas de dados clínicos, relatos consistentes e estudos corroborados por neurocientistas, físicos e outros investigadores. Aliás, a física quântica ajuda-nos a compreender esta realidade: no mundo subatómico, as partículas podem existir como matéria ou como energia. A supraconsciência poderá ser uma forma de energia que persiste noutra dimensão.

E as chamadas experiências de quase-morte são, para si, a principal evidência disso?
São uma manifestação clínica direta dessa supraconsciência. Tenho em arquivo centenas de casos em que os pacientes, apesar de estarem em paragem cardíaca, com eletroencefalograma plano, relatam tudo o que se passou à sua volta ou até longe dali. Descrevem um desprendimento do corpo, uma sensação de paz, uma luz intensa, encontros com entes queridos já falecidos. Muitos regressam transformados, com um novo sentido para a vida. Tudo isto nos obriga a reconsiderar o que é a consciência e o que é, afinal, a morte.

Afirma então que a vida continua?
Sim. Não no sentido tradicional de céu ou inferno, mas numa continuidade da consciência, noutra frequência, noutra dimensão. O corpo é temporário, mas a essência, a supraconsciência, não morre. E isso muda tudo: a forma como vivemos, como enfrentamos a morte ou como lidamos com o luto.

Este livro pretende ajudar as pessoas a mudar essas perceções?
Exatamente. Ao compreenderem que a morte não é o fim, muitas pessoas libertam-se do medo e do desespero. O luto torna-se mais suportável quando percebemos que os nossos entes queridos continuam a existir, apenas noutra forma. Recebo cartas de leitores que dizem ter encontrado paz interior depois de lerem o livro. Isso é, para mim, a maior recompensa.

Como foi a reação da comunidade científica ao seu trabalho?
Inicialmente, houve resistência e alguma hostilidade. Diziam que eu estava a misturar ciência com espiritualidade, que isso era perigoso. Mas insisti. Hoje, muitos médicos e cientistas respeitam o que apresento, porque as evidências são sólidas.
O próprio Papa Francisco pediu para me conhecer. Tivemos uma conversa breve, mas intensa. Ele disse-me: “Continue. A sua missão é importante.”

E qual é, afinal, a grande mensagem que quer deixar?
Que somos muito mais do que o corpo. Que a vida não acaba com a morte. E que temos uma missão aqui: evoluir, amar, viver com compaixão. A supraconsciência é a chave para essa transformação interior. Este livro é um convite à reflexão, ao despertar espiritual e à construção de uma nova visão da existência humana.