LISBOA: TERRA PROMETIDA OU PARAÍSO PERDIDO?

Lisboa é sinónimo de sol, praia, boa comida e de uma vida em segurança. Com o aumento dos fluxos migratórios na Europa e a evolução do trabalho à distância, há cada vez mais nómadas digitais que saem dos seus países de origem em busca de uma maior qualidade de vida.

A capital portuguesa poderá parecer o destino perfeito: os bairros tradicionais, as festas populares, o surf, o contacto com a natureza, um custo de vida mais reduzido e os benefícios fiscais, são alguns dos fatores que tornam o seu cenário idílico para os estrangeiros. Mas será esta uma memória longínqua? Uma verdade inalcançável? Ou uma ilusão criada por um mundo que cada vez mais se vende para fora sem cuidar de dentro?

Um artigo do ‘The Guardian’ retrata o modo como alguns britânicos a viver em Lisboa, a maioria nómadas digitais, olham para a cidade. No final fica a ideia de um sentimento de mal-estar vivido no seio de uma cidade, que aos poucos foi perdendo a sua essência para dar lugar aos devaneios estrangeiros, e que parece agora dividir-se em sociedades paralelas.

Alex Holder, um dos entrevistados, é um nómada digital que vive na Lapa, em Lisboa, e trabalha para agências de publicidade do Reino Unido. Conta que vive num prédio que pertence a uma só família, e que é totalmente habitado por pessoas que partilham a sua condição profissional. Alex explica que veio de Londres para cá à procura de sol, de um melhor estilo de vida e de alguma isenção fiscal. No entanto, revela que “à medida que as tensões aumentam com os moradores locais em dificuldades, muitos de nós começamos a questionar se estamos a causar mais mal do que bem”.

Andrew Steele, um ex-atleta olímpico, também se mudou de Londres para Lisboa, onde atualmente gere a sua empresa de tecnologia e saúde, em espaços de coworking. O britânico declara que foi “incrivelmente fácil” tornar-se residente em Portugal, tendo obtido um visto residência não habitual, cujo principal benefício é a isenção de impostos sobre rendimentos estrangeiros.

Embora, no início, a decisão de se mudar parecesse acertada, passado um tempo Andrew denotou uma enorme mudança.

“Chegámos a Lisboa em 2019, depois de 18 anos em Londres, durante um tempo, pareceu não haver desvantagens nessa decisão. Acreditámos que naquela cidade poderíamos ser qualquer coisa. No entanto, nos últimos dois anos há algo que se tem agitado em mim. Uma crescente desigualdade de riqueza. Uma mudança política. Uma consciência silenciosa de que os moradores mais ricos são frequentemente os que menos contribuem”, confidencia apreensivamente.

O ex-atleta afirma ainda que “recentemente, o meu desconforto foi confirmado: Lisboa foi nomeada a capital mais inacessível da Europa em termos de habitação, pelo Numbeo, o maior banco de dados de custo de vida do mundo. Naquele mesmo mês, o partido de extrema-direita, o Chega, com a sua retórica abertamente racista, tornou-se o principal partido da oposição no parlamento”.

Chris Pitney, designer que veio do Reino Unido para Lisboa com a sua mulher portuguesa, estampa uma enorme preocupação por ver a realidade paralela que se estabelece na cidade entre determinado tipo de imigrantes e os residentes locais.

“Sinto que há duas comunidades a partilhar as mesmas ruas, mas, certamente, não os mesmos cafés”, começa por explicar.  “Há milhares de pessoas em Lisboa que ganham seu dinheiro noutros países. Normalmente os seus dias são passados em casa ou em espaços de trabalho partilhado, cuja sinalização é em inglês. Estes trabalhadores remotos, que trazem dinheiro do exterior, estão a criar uma economia compartimentada. Sem escritórios e sem colegas presenciais, a comunidade deles é separada pela riqueza e cercada pela língua”, enfatiza.

“Só quando contei aos meus sogros portugueses sobre a minha situação fiscal e vi a frustração estampada nas suas caras é que compreendi a injustiça. A minha família portuguesa trabalha mais horas, ganha menos e é tributada mais”, finaliza Pitney.

Outros dos nómadas digitais citados pelo ‘The Guardian’ olham com consternação para os processos de gentrificação de que a capital portuguesa tem sido alvo, que desfavorecem sobretudo os moradores locais, e potenciam o aumento das tensões existentes face à presença de imigrantes, bem como a evolução de movimentos e partidos racistas.