“Não somos jovens que estejam preocupados em pagar as contas ao fim do mês ou em permanecer num emprego. Sinto que isso é o medo de outras gerações, não o nosso. Para nós, se não der não dá. Troca-se de emprego amanhã e está tudo bem”, explica ao 24Horas Juju Bento, artista plástica, 25 anos.
Competitivos, ativistas, ansiosos e tolerantes — estas são algumas das muitas caraterísticas que definem a ‘Geração Z’. O 24Horas quis saber como pensam e vivem os jovens desta geração. O retrato é-nos dados pelos olhos de quem lhe pertence.
Tomás Dias, de 25 anos, é padre na Arquidiocese de Évora e um dos jovens membros da ‘Geração Z’, também chamada ‘Geração Zoomers’, que compreende os nascidos entre 1997 e 2012.

Natural de Coruche, Tomás cresceu a sentir o chamamento do sacerdócio. Diz pertencer a uma geração ansiosa, com dificuldade em valorizar o presente e que ainda não encontrou um sentido para a vida. Talvez porque a maior parte dos jovens desta geração vive numa cultura de aparências que aborda as coisas apenas de forma superficial. Assim sendo, prossegue, estes jovens “não conseguem encontrar valores mais profundos”, logo, não chegam à necessária realização pessoal.
O jovem padre, tem a paróquia de São Brás, em Évora, a seu cargo. Refere o individualismo como uma condição natural da sua geração. “Nenhum de nós escapa a esta vida individualista, somos filhos do nosso tempo. Agora, tudo depende da consciência que queremos promover. Se potenciamos a consciência social e nos valorizamos enquanto coletividade, percebemos que, para essa coletividade existir, cada individualidade faz parte e faz falta.”
Tomás Dias observa ainda, com grande preocupação, que o homem vive alienado devida às máquinas. Defende que “um dos grandes desafios” da sua geração é “valorizar mais o lado humano”.
Outro dos ‘Zoomers’ com quem falámos foi Afonso Maleitas, 25 anos, que dá aulas de surf na zona de Lisboa — nas praias do Guincho, Carcavelos e Costa da Caparica. Também ele vê com maus olhos a crescente influência da tecnologia na sua geração e nas seguintes. Apesar de considerar que já começa a haver alguma consciencialização para o problema, sente que este conduz as pessoas e a sociedade a desligarem-se da realidade e, principalmente, da natureza. “Há uma liberdade no ser humano que só é possível de experienciar através do contacto com a natureza. Isso traz uma leveza, um desligar da comunicação e da quantidade de informação inútil. Dá-nos espaço para parar, sentir e pensar nas coisas.”

Afonso considera que na sociedade portuguesa o ensino e a trajetória para a vida adulta estão demasiado formatados, o que leva os jovens a pensar constantemente no futuro, gerando uma pressa que os torna bastante competitivos e, por vezes, “um bocado falsos”.
O professor de surf não é indiferente aos vários movimentos de ódio que encontra na sociedade, mas considera que esta, em geral, está a ficar mais tolerante. Uma tolerância que Juju Bento também vê com nitidez. A artista plástica, que já tem no currículo três exposições individuais, acredita ter sido a sua geração a arrancar com esta perspetiva de aceitação. Porém, defende que a mesma é um reflexo dos aspetos mais profundos da cultura do individual. “Somos tão individualistas que começamos a querer tolerar todos à nossa volta, para que todos nos tolerem a nós.”
Para Juju, aquilo que Geração Z mais valoriza é o ego e o parecer. “É uma geração que vive numa cultura de aparências, que não lê um livro; lê a parte de trás do livro para tirar uma fotografia e publicar nas redes sociais”.
Daniela Santos, de 22 anos, é empregada de balcão num café da Ajuda, em Lisboa. Acrescenta que esta cultura de aparências leva os jovens a esquecerem-se daquilo que realmente importa. E assim tornam-se pessoas com menos empatia.

A jovem, que começou a trabalhar logo depois de acabar o ensino secundário, diz-se consciente de que a vida académica é fundamental, embora acredite que também é possível vingar sem ela. Quando olha para o mundo, Daniela mostra-se assustada com toda a “ganância e consumismo” que encontra à sua volta.
Algumas das questões mais estruturantes da atualidade — como a crise ambiental, a Guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, as tensões políticas ou a saúde mental — foram outros dos temas elencados pelos jovens com quem o 24Horas falou.
Tomás Dias assume ver, nos seus pares, um interesse pela política e uma procura pela participação em causas de compromisso social. O jovem, ordenado padre em junho de 2024, defende ainda a Igreja Católica enquanto “a única instituição realmente global, detentora de um património imaterial, espiritual e de valores éticos único”.
O membro do clero defende que há por parte dos jovens um grande desejo de encontro com a Igreja, que se deve, em boa parte, a uma busca por um sentido de vida mais profundo. Para o padre Tomás, atualmente, um dos grandes desafios do catolicismo reside em promover realidades que ajudem esta geração a encontrar esse tal sentido.
Juju Bento e Afonso Maleitas referem uma enorme ambição dos ‘Zoomers’ em construir um mundo mais verde. A jovem artista observa ainda o facto de a saúde mental se ter tornado um tema na sociedade. Tal, na sua opinião, fez com que a sua geração preze bastante um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional e queira ter hábitos de vida mais saudáveis.
Quando convidado a escolher aquilo que distingue a sua geração de todas as outras, Afonso Maleitas cita um escritor americano que aprecia, G. Michael Hopf: “Tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos bons, tempos bons criam homens fracos e homens fracos criam tempos difíceis.” Fá-lo para explicar que considera que a sua geração é feita, maioritariamente, de homens fracos que estão a entrar num tempo difícil. Mas que, ao mesmo tempo, começa a emergir uma vontade de darem o passo para se tornarem homens fortes e promoverem mudanças positivas no mundo.
Ao nomear uma caraterística que torna a ‘Geração Z’ diferente das restantes, Daniela Santos escolhe o consumismo. Para a empregada de balcão, o consumismo é “algo que nos faz perder o propósito”. No seu entender, esta característica surge, em grande medida, devido à internet. “Muitas vezes queremos imitar as vidas, aparentemente perfeitas, que por lá vemos e que não passam de uma mentira”.
Tomás Dias apelida a sua geração de “comprometida”, apesar de todo o individualismo e de todas as dificuldades que, na ideia do padre, lhe são inerentes: “Define-nos esta necessidade de nos comprometermos uns com os outros e com a sociedade como um todo”.
Juju Bento enfatiza: “Acho que a caraterística que distingue a nossa geração de todas as outras é a capacidade de adaptação.” A artista plástica finaliza, dizendo haver uma “despreocupação com a estabilidade”. “Se não dá de uma forma, desenrascamos de outra.”