Passa pouco das 11 da manhã. Descontraídos, a aproveitar o sol e as vistas, são às centenas os turistas que passeiam entre a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos. Seguimos num carro descaracterizado com três elementos da Brigada F3C, da Divisão de Investigação Criminal de Lisboa, única no país especializada no furto por carteirista.
Os agentes vão atentos ao que se passa lá fora. Em Belém um deles indica: “Estão ali quatro!”. O olho clínico para detetar carteiristas está bem treinado. O veículo dirige-se para o local, pára e saem dois elementos para seguir as movimentações de quatro raparigas.
À distância, mas suficientemente perto para detetar o crime, os dois polícias aguardam pela ação das carteiristas. Fazem-se passar por turistas. Há um detalhe que chama a atenção: usam lenços e echarpes, apesar do clima ameno. E fazem-no mesmo em pleno verão. “Servem para disfarçar no momento em que vão meter a mão para furtar”, explica o chefe-coordenador da brigada, Ernâni Agostinho.
O quarteto de carteiristas segue em frente. Aproxima-se um grupo de turistas japoneses. Elas dão espaço e voltam atrás, para assim conseguirem seguir os nipónicos, que ficam de costas. Riem-se alto e fingem filmar-se e fotografar-se com os telemóveis. Num instante, uma das raparigas usa um lenço e enfia a mão na mochila de um dos turistas. Não consegue subtrair carteira ou dinheiro.
Após esta tentativa falhada de furto, as carteiristas voltam ao seu caminho. Seguem diretas para o túnel que liga o Padrão dos Descobrimentos à Praça do Império. É ali que fazem outra tentativa de furto, desta vez com resultados. Outro japonês foi o alvo. Um dos agentes aborda a vítima; outro segue no encalço das carteiristas. O turista dá por falta de 100 euros.
Já longe, na Rua Damião de Góis, as quatro mulheres são abordadas e encostadas à parede. Revistam-lhes malas, casacos, bolsos. Nada. “Elas terão colocado o dinheiro dentro das partes íntimas.” Fazem-no usando sacos de plástico pequenos, normalmente utilizados para apanhar dejetos caninos.
Seguimos com dois agentes para a esquadra de Belém onde a vítima já está a fazer a participação. As suspeitas são levadas em dois carros da polícia para a 1.ª Esquadra de Investigação Criminal, onde está sediada a F3C, “para uma revista mais aprofundada”.
Viemos mais tarde a saber que o dinheiro não foi encontrado. Os agentes estão convencidos que uma das mulheres terá colocado o montante no interior do ânus. Há dois cenários. A carteirista pode colaborar e expulsar o saco com o dinheiro. Em alternativa, se os polícias assim o entenderem, poderá ser levada a um hospital para que o mesmo seja retirado.
Dali, as carteiristas foram levadas para os calabouços do Comando Metropolitano de Lisboa, em Moscavide, onde ficaram detidas até serem ouvidas por um juiz no prazo de até 48 horas. Então saberão quais as medidas de coação a serem seguidas.
Só uma das raparigas não tem ficha na polícia. Tem 19 anos e parece assustada. Revela, ao 24Horas, a coberto do anonimato, estar em Lisboa há apenas dois dias. Diz ter aproveitado as férias escolares para vir a Portugal. “Muitas fazem-no para vir ganhar uns trocos e depois voltam para a Roménia”, afiança um dos operacionais que procedeu à detenção.
As outras três, na casa dos 20 anos, já são conhecidas. “Faço isto para comer”, assegura a mais experiente. Dormem normalmente em pensões e deslocam-se entre capitais europeias. “Também já estive em Espanha e em Itália”, refere a rapariga. Todas acabam por assumir o seu modo de vida. Questionada sobre se ganha mais a furtar carteiras em Portugal ou em Espanha não tem pudores em assumir que “Espanha é melhor” para o seu ‘negócio’.
Na esquadra de Belém, o japonês, de 77 anos, sozinho em Lisboa em trânsito para Santiago de Compostela, está assustado. “Nunca imaginei que isto me acontecesse. Lisboa foi-me descrita como uma cidade segura”, lamenta.
O homem pede boleia aos agentes para voltar ao hotel. “Não quero andar mais na rua. Amanhã seria dia de dar um passeio e depois seguir pelo Caminho de Santiago, mas ainda não sei o que vou fazer”. Quanto a um eventual regresso à capital portuguesa, em turismo, mostra-se reticente. “Não sei se voltarei algum dia”.
CIRCULAM ENTRE A BAIXA E BELÉM
Lisboa é o terreno mais fértil em carteiristas no país. “Os pontos onde há mais turismo são os mais sensíveis”, explica Ernâni Agostinho. “Há duas zonas que nunca podemos descurar: a Baixa – sobretudo a Rua Augusta, Praça do Comércio e a Rua Garret – e Belém.”
Todos os dias os operacionais da F3C saem para a rua. Por vezes com carro, outras apeados. “Há dias em que andamos mais de dez quilómetros a pé”, desvenda um dos agentes.
Na manhã em que o 24Horas acompanhou a brigada foram colocados dois operacionais no terreno. Saímos da 1.ª Esquadra de Investigação Criminal, na Rua da Palma, e fomos subindo, no automóvel descaracterizado, até à Graça com passagem por uma das entradas da Feira da Ladra.
Os operacionais estão em constante contacto. Assim que são identificados carteiristas deslocam-se ao encontro dos colegas para agilizar as abordagens. Seguimos para Belém onde foram observadas duas mulheres a tentar furtar por carteirismo. A meio caminho é recebida uma nova chamada: a dupla meteu-se num táxi e abandonou o local. “É quase sempre assim. Quando conseguem furtar mudam de zona. Normalmente, se estão em Belém metem-se num táxi e vêm para a Baixa, ou vice-versa”, acrescenta um dos polícias.
Começamos a subir do Cais do Sodré para o Chiado. Nova chamada: há mais carteiristas em Belém. É para lá que seguimos e acabamos por encontrar as quatro romenas que tinham sido detidas neste mesmo dia.
OS PREFERIDOS: JAPONESES E CHINESES
Os velhos carteiristas da capital são, hoje, uma espécie rara. Aníbal, 89 anos, o mais antigo, está preso no Estabelecimento Prisional de Lisboa. O perfil dos carteiristas e os locais de atuação também têm vindo a mudar. “Antes, os carteiristas eram aqueles gentlemen que ajudavam as velhinhas a subir para o elétrico ou abriam as portas dos estabelecimentos para elas entrarem e, ao mesmo tempo, estavam a subtrair-lhes a carteira. E elas ainda agradeciam”, recorda Ernâni Agostinho.
“Hoje em dia não. Esses já se ‘reformaram’. Agora os carteiristas são sobretudo mulheres, muito jovens, e oriundas de países de Leste, sobretudo da Roménia. Os transportes públicos estão mais limpos porque a moldura penal é diferente. Se for na rua é furto simples. Num transporte é qualificado e dá penas maiores. Por isso, agora vê-se menos carteiristas nos elétricos – que eram muito fustigados, sobretudo o 15 e o 28 –, no metro ou nos autocarros. Mesmo assim, é sempre preciso que as pessoas estejam atentas aos seus pertences”, acrescenta o chefe da brigada dedicada ao carteirismo.
Os furtos aumentam a partir da primavera, têm picos na Páscoa e no verão quando há maior fluxo de turistas. “Os alvos são sobretudo os orientais: japoneses e chineses. Os orientais são muito desconfiados, têm medo de tudo, e não deixam o dinheiro no hotel. Por isso, transportam somas maiores. Os brasileiros também. Os europeus nem tanto. E os portugueses muito menos. Eles não vão chatear-se a furtar um português por causa de 10 ou 15 euros”.
Além dos carteiristas há ainda “os que andam ao descuido. Nesse caso temos, também, alguns cidadãos magrebinos. Eles estão sentados nos halls dos hotéis, a fazer de conta que estão a ler o jornal ou ao telemóvel. Na altura em que os turistas estão a fazer o check in, e têm as malas à sua volta, mas não estão a olhar, eles aproveitam e furtam malas e sacos”.
Os pequenos-almoços nos hotéis são outro alvo dos amigos do alheio. “Mais uma vez é o furto de oportunidade. Eles entram nos pequenos-almoços, servem-se, comem e bebem à borla e depois ficam à espera de que os turistas se distraiam. Os turistas chegam, deixam, por exemplo, os telemóveis em cima da mesa, e vão ao buffet. É nesta altura que eles aproveitam e furtam os telemóveis”, exemplifica Ernâni Agostinho.
A F3C atua não só no flagrante delito, mas também fazendo o seguimento de alguns carteiristas. “Quando se acumulam os casos de furto abrimos uma investigação e fazemos o seguimento da pessoa. Estamos sediados em Lisboa, mas andamos por todo o país. Imagine que há um carteirista já referenciado que se mete num comboio para ir para Coimbra. Nós vamos atrás dele, fazemos a vigilância, e tentamos obter meios de prova para a investigação.”
Nestes crimes, quase todos acabam por reincidir. “As penas são, muitas vezes, de multa. O que é que acontece? Elas furtam, são condenadas a pagar multa, e voltam a furtar para pagar a multa. Depois continuam porque isto acaba por ser uma maneira fácil de ganhar dinheiro”, explica um dos agentes, junto ao quarteto de romenas, em Belém.
A mais expedita assume que já conseguiu furtar quantias na ordem dos 200 a 300 euros numa só carteira. O recorde, segundo o polícia, fixou-se em Paris quando outra cidadã romena, também conhecida das autoridades portuguesas, se apoderou de 44 mil euros… numa só carteira.