José Bettencourt de Sousa, 48 anos, trabalha na construção civil. Tal como aconteceu no bairro do Talude Militar, em Loures, também ele viu a sua barraca ir abaixo. Só que, desta vez, foi em plena cidade de Lisboa, na freguesia de Alvalade.
De facto, como o 24Horas testemunhou, ainda há pequenos núcleos de barracas dentro da capital. José Sousa morava desde 1998 naquela habitação precária, à beira da Quinta do Alto, um pequeno enclave entre os prédios de classe média da Avenida do Brasil e o Aeroporto Humberto Delgado. Muitos das pessoas que também estavam a viver assim foram sendo realojadas em Chelas, outras foram ficando para trás.
Há um mês a barraca foi demolida e o operário da construção civil ficou sem teto. “A câmara deu-me 30 dias para sair. Consegui pôr as minhas coisas num armazém do meu patrão”, relata o homem, desalentado.
CÂMARA DE LISBOA ASSUME QUE NÃO TEM SOLUÇÃO PARA BETTENCOURT
Durante vários anos a rua não tinha nome e a barraca não tinha número de porta. A morada fiscal do homem, conhecido por ali como ‘açoriano’, por ser natural da Graciosa, era a de casa de uma das irmãs, numa avenida central de Lisboa.
O homem conta que, logo após os acontecimentos, candidatou-se antes ao Programa de Renda Acessível do município lisboeta, mas que foi alertado: “Disseram-me que ganho muito e que, se calhar, não tenho direito”. O salário de José Bettencourt de Sousa é de 1100 euros mensais. “Até 400, 450 euros posso pagar. O resto que sobra iria dando para o resto das coisinhas”, encolhe os braços.
Ao 24Horas a Câmara Municipal de Lisboa assume que não tem solução para José Bettencourt de Sousa. Tudo porque ele… tinha outra morada, apesar de, na barraca não ser possível ter morada, sem número de porta ou nome de arruamento. “Na sequência da operação de Loteamento aprovada em julho de 2017, para o Bairro São João de Brito, foram identificados os lotes para demolição”.
Fonte oficial do município frisa: “Foram também identificadas as famílias residentes nos referidos lotes e, por deliberação da Câmara Municipal de Lisboa de outubro de 2018, foi aprovado o realojamento das que não tinham alternativa habitacional e que cumpriam os critérios definidos no Regulamento de Operações de Realojamento”. Bettencourt ficou de fora.
O operário da construção civil está desesperado. “Eu sei bem como é que me arranjavam já uma casa”, afirma. Mostramos espanto. Ele explica: “Ia à câmara, de uma certa maneira, e arranjavam-me logo casa em Vale de Judeus ou em Monsanto. Mas essas casas não quero”, ironiza.
DORME ONDE CALHA E COME O QUE LHE DÃO
José Bettencourt de Sousa morava na barraca com outra irmã, o cunhado e uma sobrinha. Os familiares foram para uma casa da família em Torres Vedras. Restou ele. Desde há cerca de um mês, quando foi feita a demolição, que por ali ainda é visível muito entulho.
Tal como os moradores do Talude Militar, em Loures, onde a solidariedade entre vizinhos faz com que alguns dos que ficaram sem teto durmam nas barracas de outros, que continuam de pé, também José anda em bolandas. “Agora vou vivendo de favor, em casa de vizinhos, aqui nesta zona. Um dia durmo em casa de um, no outro em casa de outro”, descreve o açoriano.
As roupas também estão no armazém do patrão. Tem de trazer as mudas conforme vai tomando banho em casa alheia. Sem possibilidade de cozinhar vai a restaurantes ou “como o que me dão.”
O local onde estava a barraca que habitou durante 27 anos vai agora, conforme relata José Bettencourt de Sousa, ser convertido numa zona verde. Ali já é terreno municipal e fica junto a uma das pontas do Bairro de São João de Brito, entretanto reabilitado. É só atravessar a rua para entrar em território privado, por onde se espalham oficinas, casas autoconstruídas e outras barracas, na Quinta do Alto. E é aí que José encontra apoio dos mais desfavorecidos.