Não é insulto, é categoria profissional. O país tem médicos, professores, canalizadores e, desde há uns anos, tem também um...
Não é insulto, é categoria profissional. O país tem médicos, professores, canalizadores e, desde há uns anos, tem também um chato oficial do regime, com tempo de antena, grupo parlamentar e direito a microfone sem limite de utilização.
O sempiterno André Ventura, estrela pop dos anos 20, é um chato. Parece veterano de uma guerra que só ele combateu, a da pureza da nação contra o perigo invisível do vizinho moreno, e conta sempre as mesmas histórias, como se o Natal fosse todos os dias e a ceia fosse paga pela Entidade Reguladora. Já estamos vacinados para não lhe perguntar nada sobre a Guiné ou o Lubango; perguntar-lhe seja o que for é abrir a cancela da central hidroeléctrica do ressentimento.
Primeiro, porque isso abre portas a que fale horas infindas. Até o Pai Natal e o Menino Jesus fogem para não o ouvir, suplicando à gerência do presépio por cancelamento de temporada. Depois, porque conta sempre o mesmo: os ciganos, os imigrantes de tez mais escura, os corruptos dos Generais e, ainda, os ciganos, os imigrantes de tez mais escura, os corruptos dos Generais, para finalmente desaguar nos ciganos, nos imigrantes de tez mais escura, nos corruptos dos Generais. É o ciclo hidrológico da conversa de café: evapora do Facebook, condensa no parlamento, chove em horário nobre.
É chato. É aborrecido, aperreador, sacal, aperreante, aporrinhante, azucrinante, cacete, cansativo, desagradável, enfadonho, enfastiante, fastidioso, impertinente, importuno, incómodo, inconveniente, insistente, intrometido, irritante, maçador, maçante, monótono, tedioso. O sempiterno André Ventura não tem mais temas do que Jorge Máximo, conhecido taxista do Benfica que fez greve (?) um dia, contra a Uber, junto à rotunda do Relógio. Desfilou argumentos à primeira pergunta e, quando lhe fizeram a segunda, repetiu a resposta.
O truque é simples: troca-se a cassete, mantém-se a música. Hoje são ciganos, ontem foram outros, amanhã será uma nova categoria oficial de culpados com carimbo e estatística conveniente. Ventura descobriu que a política é karaoke de indignação: escolhe-se uma base rítmica — “eles”, “os de fora”, “os que vivem à nossa custa” — e grita-se por cima até o público acreditar que aquilo é improviso — e ainda levam as fronhas de borla.
O mais inquietante é que o chato não vive sozinho. Precisa de plateia, de aplauso, de comentador a sério a dizer “temos de o ouvir, representa muitos portugueses”. Como se representar medos bastasse para lhes dar razão, da mesma forma que um termómetro, por medir febre, passasse a ser especialista em vírus.