A minha vida confunde-se desde sempre com os jornais. Foi com eles que praticamente aprendi a ler, foi neles que...
A minha vida confunde-se desde sempre com os jornais. Foi com eles que praticamente aprendi a ler, foi neles que comecei a trabalhar, foi com eles que tive muitas das minhas grandes alegrias e também desilusões ao longo destes anos.
Conheço-os de fio a pavio, sei, sem falsa modéstia, ‘fazê-los’ na verdadeira aceção do termo – criá-los, planeá-los, escrevê-los, até, se tal for preciso, paginá-los, e fazer as suas primeiras páginas – só me falta mesmo saber dar a indispensável ordem de marcha à rotativa.
Sou ainda do tempo, embora miúdo, do chumbo, das redações submersas em densas nuvens de fumo, das máquinas ‘azert’ ou até mesmo ‘hcesar’, e dos chefes que, de pés postos em cima da mesa, balão de whisky numa mão, e cigarro na outra, comandavam a redação ao som de berros que mais soavam como estalidos de chicote.
Lembro-me até, pasmem-se, da polémica passagem do chumbo para o ‘offset’, da figura mítica que a protagonizou, Lopes do Souto de seu nome, do início da era dos ‘ozalides’, das ‘casas da venda’, dos ardinas, dos jornais lançados quais ‘boomerangs’ de uma só viagem para as varandas, e dos tempos em que os jornais eram companhia obrigatória nas manhãs de qualquer um.
Por outro lado, infelizmente, sei bem o que muitos, de empresários a jornalistas, fizeram aos jornais ao longo destes anos; assisti à decadência do papel; ao fim de aquilo que justamente se podia considerar uma ‘arte’; à maneira incompetente como cada vez mais são dirigidos, quase sempre à ordem de agendas e interesses que nada têm a ver com o propósito de informar, muito devido à ascensão aos cargos de chefia, salvos honrosas exceções, de gente sem qualificação ou sequer pálida ideia do que é um jornal, e como fazê-lo.
Vem todo este exercício memorialista, chamemos-lhe assim, a propósito da notícia, saída há dias, sobre a iminência dos jornais poderem deixar de ser distribuídos diariamente em oito distritos. E principalmente da aparente apatia e encolher de ombros de um ministro que, dizem-me, confunde o seu desagrado pessoal com manchetes e artigos, com o dever e obrigação de contribuir para que os jornais em papel não venham a desaparecer. Deixe-se de fitas, sr. ministro Leitão Amaro – faça qualquer coisa, toca mas é a salvar os jornais!