É cada vez mais difícil ignorar que o sistema político português entrou no seu verdadeiro “momento da verdade”. Esta percepção não...
É cada vez mais difícil ignorar que o sistema político português entrou no seu verdadeiro “momento da verdade”.
Esta percepção não tem sido devidamente verbalizada pela generalidade da comunicação social nem pelos principais protagonistas políticos, mas basta ouvir a chamada “ideologia do café” – outrora conhecida como “narrativa dos taxistas” – para perceber que a credibilidade dos políticos está pelas ruas da amargura e que a confiança nas instituições já viveu tempos bem mais saudáveis.
As causas são múltiplas, muitas externas ao país, mas entre nós agravadas pelo surgimento de um partido que fez do descontentamento latente o seu único programa. Um partido sem lógica, sem racionalidade e sem moral, desde que isso renda votos, mesmo que implique mudar de opinião diariamente.
O resultado é uma democracia enfraquecida, pós-Chega, em confronto directo com a prática democrática construída entre 1974 e 2015. E os seus principais alimentadores estão identificados: os criadores e usurários da “geringonça”, serventuários exclusivos do projecto pessoal de António Costa, incapazes de reconhecer os problemas reais da sociedade portuguesa e, ainda menos, de lhes dar resposta.
Motivada por audiências, entusiasmo ou agenda própria, a comunicação social portuguesa tornou-se cúmplice deste estado de coisas. Não apenas pela promoção diária, obsessiva e quase pornográfica, de André Ventura, mas também pelo desgaste sistemático da classe política, feito de forma leviana – embora profissional – assente em palpites, suposições, denúncias e declarações sem razoabilidade.
Invoca-se, como sempre, a liberdade de informação, constitucionalmente consagrada. E bem. O problema surge quando esse direito não vem acompanhado do dever de corrigir erros e ressarcir os lesados. Algo que, tanto quanto se vê e ouve, raramente acontece.
O chamado quarto poder não existe para estragar, mas para, através do escrutínio e da verdade, fortalecer a democracia. Quando falha, fragiliza-a.
O recente arquivamento do caso em torno da actividade privada do actual PM é um exemplo paradigmático. Meses de investigação judicial produziram instabilidade política e atraso no necessário processo social e económico. Ainda assim, apesar da clareza da decisão do ministério público, o comentariado apressou-se a engolir o arquivamento num previsível “sim, mas”, anunciando novas investidas e acusações recicladas.
Nada disto surpreende vindo dos partidos extremistas. Já é bem mais difícil compreender que esta seja também a narrativa do Partido Socialista, historicamente um partido da responsabilidade republicana.
O líder formal limitou-se a lamentar os recursos públicos gastos – declaração tão bizarra quanto reveladora – enquanto o líder informal derrotado, Pedro Nuno Santos, (uma espécie de Papa Negro) insiste que Montenegro não tem condições para se manter como PM. Na mesma linha, Ana Gomes justifica o arquivamento da sua queixa europeia com o facto (aberrante) de os apoios terem sido concedidos pelo governo de António Costa.
Desvario completo. E sinal claro de uma degradação democrática que talvez venha a impor uma equilibrada e controlada “refundação”, possível apenas através de uma revisão constitucional consensualizada.
Tema a abordar com cuidado, sem histerias e sem tabus, num futuro próximo.