Eles andam aí, de olhos esgazeados pelos hipermercados, empurrando carrinhos frenéticos cheios de nadas. Acotovelam-se no talho disputando o maior...
Eles andam aí, de olhos esgazeados pelos hipermercados, empurrando carrinhos frenéticos cheios de nadas. Acotovelam-se no talho disputando o maior dos perus, empurram-se nas filas para o polvo e o bacalhau, perdem o juízo nas prateleiras dos chocolates, dos ananases, dos jogos e brinquedos, das decorações “natalícias”, dos vinhos e camarões. Estende-se por metros de impaciência o engarrafamento junto à caixa, onde meninas pagas a salário mínimo se mascaram de festa com cornos de rena presos à bandelete. No éter da loja, o Stille Nacht embala terminais de multibanco e mbways.
Nas ruas, tudo lhes instila o veneno do desbarato. Os milhões dissipados nas iluminações feéricas, as lojas de eletrodomésticos, um pai natal a cada esquina, oh oh oh, árvores de plástico prometendo a felicidade à mão de semear, comboizinhos elétricos “para a Lapónia”, patinagens no gelo, sacos de plástico cheios da compra anterior a caminho da compra seguinte, laçarotes exuberantes selando caixas de mistério. O remediado querendo mostrar que é rico. O pobre armando-se em remediado. Todos gastando o pouco que têm e carregando a crédito o que não têm.
Em casa, o televisor ligado vomita quilómetros de reclames, de sonhos, ilusões de fadas e lantejoulas. A lingerie incandescente em corpos perfeitos. Viagens maravilhosas às disneylândias da vida. Telemóveis que fazem tudo e mais não sei o quê. Bicicletas e perfumes. Computadores e garrafeiras-seleção. Relógios, joias e pulseiras de oiro fanado. Taludas a dividir por promessas em frações, cabazes ao domicílio e uísques de doze anos contados a correr. Vislumbres de highlife em carros topo de gama que o cobrador do fraque há-de recolher mais tarde. Compre, que neste natal é mais saboroso. E a mesa. A mesa farta das fomes ancestrais. Comer, comer, comer. Os adultos subitamente reconciliados perante a fartazana, carapuços cocacólicos enfiados, rindo a gargalhadas grossas. As crianças fardadas com pijamas de xadrez encarnado, “à pai natal”. Sempre a comer, a comer, a comer até cair no sofá, esmoendo frente ao ecrã onde tudo foi previsto.
O Natal da alegoria do estábulo, do burro e da vaca, da estrela e dos três sábios, o Natal ensinado como lição de humildade e esperança, o Natal do recolhimento e da trégua, o Natal que inspirou dois mil anos de caminhada – esse Natal jaz aqui, soterrado sob o entulho de desperdícios com que o mataram.