Tradicionalmente, na literatura e na vida, os mais jovens são confrontados com a necessidade de ouvir os conselhos dos anciãos...
Tradicionalmente, na literatura e na vida, os mais jovens são confrontados com a necessidade de ouvir os conselhos dos anciãos e seguirem a sua sapiência. Ora para guiarem a sua vida segundo os padrões que imperam nessa sociedade, ora para os protegerem de erros que os mais experientes foram cometendo ao longo da sua vida. Em ambas as situações, observa-se uma benevolência condescendente daqueles que já viveram mais tempo. A vivência é, sem dúvida, um valor, mas não pode se transformar em autoridade incontestável, caso contrário cristaliza obstáculos que impedem as reformas necessárias. Em sociedades envelhecidas, como aquela que temos em Portugal, o impacto desta boa-vontade vetusta tem condicionado os últimos 50 anos da democracia portuguesa, seja pela defesa excessiva de uma estabilidade que não nos tem permitido sair da cauda da Europa em vários indicadores socio-económicos, seja pela prudência de não se alterarem os protagonistas políticos do Regime, seja pelo imobilismo que nos constrange e nos acobarda. Mas a democracia portuguesa enfrenta, hoje, desafios que necessitam, mais do que nunca, do diálogo e da articulação intergeracional. Para isso, os mais experientes terão que ouvir e compreender os mais jovens. O que os preocupa, quais são as suas expectativas, afinal serão eles que ficarão por cá durante mais tempo. Hermann Hesse, no rescaldo da I GM, em 1919, quando em Versailles se discutia a nova Ordem Mundial, apresentava-nos uma crítica profunda à autoridade moral herdada, na sua obra Demian, e à ideia de que a maturidade consiste em adaptar-se ao mundo tal como ele é, não apenas o mundo claro e paternal, mas também o mundo frio e sombrio, Para o escritor, a juventude é o momento em que o individuo tem a lucidez inicial para perceber os vícios da ordem social em que vive e ainda não aprendeu a normalizar a injustiça.
Ao longo dos debates, João Cotrim de Figueiredo, tal como Damien ensaiou inquietar-nos e colocar propostas para o futuro. Mas foi mais longe. Destapou que o sistema político português foi-se organizando para proteger os interesses instalados, transferindo os custos e os riscos para aqueles que foram chegando, sempre, mais tarde e, naturalmente, acomodando cálculos estratégicos eleitorais, que sempre beneficiou os candidatos do status quo. Esta leitura do Cotrim não é política, nem tão pouco social ou económica. É ética e moral. E todos nós, que somos pais e avós, devemos perceber que preservar privilégios atuais à custa de oportunidades futuras, pode comprometer a democracia, enquanto pacto entre gerações, a qual passa a operar como mecanismo de exclusão temporal, mas também a alienar os mais jovens que olham, cada vez mais, com desconfiança para sistemas democráticos demasiado herméticos e opacos. A democracia não é apenas um sistema de escolha é, também, um exercício permanente de auscultação. O convite que deixo a todos, neste dia de Natal, é para que ouçam os jovens que estão à mesa, o que têm eles a dizer sobre o futuro de Portugal e o porquê da escolha para a Presidência da República deve recair em João Cotrim de Figueiredo, sem a arrogância pedagógica adulta.
Liliana Reis, professora universitária e apoiante de João Cotrim de Figueiredo.