No próximo dia 18 de Janeiro, quando formos votar nas eleições presidenciais, a democracia portuguesa realizará a sua 52.ª escolha...
No próximo dia 18 de Janeiro, quando formos votar nas eleições presidenciais, a democracia portuguesa realizará a sua 52.ª escolha desde o 25 de Abril de 1974. Não é um acto qualquer. É, mais uma vez, a confirmação de que o futuro do país não é um acidente: constrói-se.
Nunca como agora se viveu um clima político tão marcado pela fragilidade, pelo descontentamento e pela inquietação. O aparecimento de uma força política portadora de valores retrógrados da extrema-direita — impulsionada por erros de governação, jogos partidários e escolhas discutíveis feitas após 2015 — marca de forma clara um antes e um depois na nossa vida colectiva.
Estas eleições não servirão apenas para eleger um novo Presidente da República. Serão, sobretudo, uma avaliação ao estado do regime e um teste sério à resiliência da democracia.
Tudo aponta para uma segunda volta. Nenhum dos candidatos reúne condições para vencer logo à primeira. E, apesar das habituais sondagens de “empate técnico” que nos são “impostas” semana sim, semana não, é altamente provável que o candidato anti-sistema fique pelo caminho. Ao contrário do ruído produzido por comentadores e por uma parte da comunicação social com agenda própria, o eleitorado português tem dado provas de lucidez, maturidade e serenidade, mesmo quando a oferta política é frágil ou medíocre.
Só um resultado equilibrado poderá abrir caminho à estabilidade política e social de que o país precisa para proteger o seu interesse num mundo cada vez mais turbulento.
Num contexto internacional em que as democracias liberais enfrentam ataques coordenados de projectos autocráticos e cruéis, o pior erro que um pequeno país, como o nosso, poderia cometer seria mergulhar numa fase prolongada de instabilidade e indefinição. Nunca foi tão urgente reler Hannah Arendt e a sua obra clássica sobre As Origens do Totalitarismo.
O bom senso dos eleitores, contudo, não basta. É igualmente indispensável a competência, a seriedade e o sentido de bem comum dos partidos. Tal como funcionam hoje, arriscam perder relevância e desaparecer do espaço público. São mais falados pela corrupção (real ou percebida), pelo amiguismo, pela incompetência e pela cultura do tribalismo do que pelas soluções que apresentam.
Os partidos do futuro terão de construir lideranças fortes, mobilizadoras, capazes de apresentar planos de acção concretos para a resolução dos problemas reais das pessoas. E só recuperarão credibilidade quando convencerem os cidadãos de que as promessas que fazem são para cumprir.
Em Janeiro teremos uma nova oportunidade de refrescar a democracia. Não a podemos desperdiçar. Porque votar é, afinal, escolher.
A eleição do novo Presidente da República será um momento decisivo da nossa vida colectiva e poderá ajudar a edificar, seguramente, uma sociedade mais justa, estável e solidária.