Há 20 anos que a Esquerda não tem um dos seus na Presidência da República. O último foi Jorge Sampaio...
Há 20 anos que a Esquerda não tem um dos seus na Presidência da República. O último foi Jorge Sampaio entre 1996 e 2006, depois de Mário Soares ter ocupado esta cadeira entre 1986 e 1996.
Entretanto passaram 20 anos em que no mais alto cargo político do País estiveram Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, ambos antigos líderes do PSD.
A campanha para as próximas eleições Presidenciais começou muito cedo. Em Abril começaram a ser conhecidas sondagens com muitos protocandidatos em que se destacava na frente, com assinalável vantagem, o Almirante Henrique Gouveia e Melo, que se tinha tornado conhecido pelo seu bom trabalho na gestão da vacinação da Covid-19. Pouco mais se conhecia deste militar que chegou a Chefe do Estado-Maior da Armada.
Ao longo de nove meses Gouveia e Melo passou de um destacado favoritismo nas sondagens para um cenário de incerteza, encontrando-se agora numa situação de “empate técnico” com os candidatos mais bem colocados para passar a uma segunda volta que temos como certa dada a dispersão de votos pelos onze candidatos.
O seu primeiro grande erro político foi a escolha de Rui Rio para seu mandatário nacional. Um candidato que se afirma como fora da lógica partidária nunca poderia escolher para seu mandatário um ex-líder político que esteve à frente do PSD, entre 2018 e 2022.
Os debates televisivos, que tiveram início em Novembro, fizeram o resto com uma postura do Almirante pouco empática e um ziguezaguear político à procura dos apoios perdidos ao longo dos últimos meses.
Com isto ganharam Luís Marques Mendes e António José Seguro que passaram a estar na corrida pela passagem à segunda volta, já que André Ventura parece ter fidelizado o eleitorado do Chega que o colocará, com maior ou menor dificuldade, no segundo turno das Presidenciais.
Restam os candidatos ditos “partidários”, Cotrim de Figueiredo da Iniciativa Liberal, que sem surpresa aparece nas sondagens com intenções de voto acima do resultado que o seu partido obteve nas últimas Legislativas, mas também António Filipe do PCP, Catarina Martins do BE e Jorge Pinto do Livre, que vieram a jogo apenas para marcar o território político dos seus partidos.
A estes ainda se juntaram o folclórico vocalista dos ENA PÁ 2000, Manuel João Vieira, o sindicalista André Pestana e o pintor de rua algarvio, Humberto Correia, que pretende fazer uma campanha do Norte até ao Algarve, replicando o trajecto de Dom Afonso Henriques.
Perante todos estes candidatos, se a Esquerda pretender eleger novamente um Presidente da República resta-lhe engolir alguns sapos logo à primeira volta.
Desta vez, não pode a aguardar pela segunda volta, como aconteceu em 1986 com Mário Soares, em que Álvaro Cunhal para evitar a eleição de Diogo Freitas do Amaral pediu aos militantes comunistas para taparem a cara de Soares no boletim de voto com uma mão e com a outra mão colocarem a cruzinha no socialista, que sempre combateu.
De forma politicamente inteligente prevaleceu para Cunhal a opção pela tese “do mal menor”, antes Soares que Freitas!
Agora o “engolir dos sapos” terá que acontecer, mesmo, na primeira volta das eleições Presidenciais, por via da desistência oficial das candidaturas de António Filipe, Catarina Martins e de Jorge Pinto, ou de apenas alguns destes três mosqueteiros da Esquerda, a favor de António José Seguro, ou então pela opção do voto útil individual de cada eleitor de Esquerda, no dia 18 de Janeiro.
Até porque, com alguma tranquilidade, a passagem de António José Seguro à segunda volta o levará à Presidência da República, dado os elevados níveis de rejeição que André Ventura ainda mantém junto dos portugueses.
Caso a Esquerda opte por não engolir sapos, logo à primeira volta, creio que passará mais dez anos afastada da Presidência República.
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)
P.S. Do ponto de vista ideológico sou um eleitor do centro-direita, mas pela primeira vez a vinte dias de uma eleição ainda não decidi o meu sentido de voto, talvez como muitos portugueses apenas tome a decisão na cabine de voto.