Um futebolista, uma atriz e um segredo. Um caso extraconjugal que se transformou em tragédia,
um desaparecimento que se revelou um homicídio, um crime que chocou um país. Há mais de 15 anos, o Brasil chorava a morte de Eliza Samudio, atriz e modelo, então com 25 anos, assassinada pelo amante, o ex-guarda-redes do Flamengo, Bruno Fernandes de Souza, naquele que foi um dos homicídios mais mediáticos da história do Brasil.
A vida de ambos cruzou-se e a paixão despontou, mas rapidamente a história tornou-se num filme de terror. Da violência e do ódio que tomaram conta da relação restaria um filho. O amor de uma mãe criado pela a avó materna, Bruninho. Herói de uma história que começou trágica. Uma vítima colateral que não se vitimizou, e que se agarrou à vida amparado pelo amor dos que lhe sobraram.
O 24Horas conta-lhe agora a história desta relação e do que restou dela: um filho! Que
sonha seguir as pisadas do seu pai, ser guarda-redes profissional.
Eliza Samudio era uma jovem bonita, natural da Foz do Iguaçu, no Paraná, que trabalhava como modelo e atriz. Bruno Fernandes de Souza, um promissor futebolista que defendia as redes da equipa principal do Flamengo. Habituados às luzes e às câmaras, conheceram-se numa festa no Rio de Janeiro e não demorou muito até que, entre 2008 e 2009, iniciassem um relacionamento secreto, já que o guarda-redes era casado com Dayanne Rodrigues, de quem tem duas filhas.
Os encontros entre ambos foram-se sucedendo até que Eliza engravidou. Bruno, que não queria assumir a paternidade da criança, tentou forçar a jovem a abortar. A partir daí a relação azedou. Agressões, trocas de acusações, afastamento. No entanto, e apesar da insistência contrária do pai, a criança acabaria mesmo pornascer, em fevereiro de 2010. Quatro meses após o nascimento do bebé e com a tensão entre ambos cada vez maior, Eliza acabaria por viajar com Bruninho, a pedido do guarda-redes, até uma quinta que este tinha em Belo Horizonte, para falarem sobre a paternidade do menino. A atriz saiu de sua casa no Rio de Janeiro para uma viagem da qual nunca iria voltar.


Semanas depois da sua deslocação até ao Estado de Minas Gerais, uma denúncia anónima alertava as autoridades de que a jovem tinha sido agredida e morta na propriedade do jogador de futebol. A investigação começou, as suspeitas aumentaram. Semanas depois um adolescente de 17 anos, primo de Bruno Fernandes de Souza, assumia ter sido cúmplice no sequestro de Eliza Samudio e do seu filho, revelando que a modelo teria sido morta por outros cúmplices, a mando do guarda-redes do Flamengo. O bebé foi entregue a desconhecidos e localizado pela polícia, ficando posteriormente à guarda da avó materna, Sonia Moura, que o criou.
Três anos depois do desaparecimento de Eliza, Bruno Fernandes de Souza era condenado a 22 anos e três meses de prisão pela morte e sequestro da amante. O caso envolveu quase uma dezena de cúmplices, oito deles condenados, entre os quais um antigo polícia. A ex-mulher, Dayanne Rodrigues também foi julgada, no entanto, acabou absolvida das acusações.
De acordo com a investigação e os depoimentos dos envolvidos, a jovem terá sido estrangulada e esquartejada. Os seus restos mortais foram alegadamente dados de comer a cães de raça rottweiler e nunca foram encontrados.
Esta semana, a história ganhou nova vida, depois de um passaporte da jovem brasileira ter sido encontrado dentro de um livro, num apartamento alugado, em Carcavelos. O documento foi encontrado por um indivíduo que alugou a casa no final de 2025, e apresentava um carimbo de entrada em 2007, não tendo, porém, qualquer registo de saída. O acontecimento rapidamente fez ressurgir várias teorias de que Eliza ainda pode estar viva. No entanto, a representante legal da sua família, Maria do Carmo Santos, já veio explicar o sucedido. Em declarações à imprensa brasileira, a advogada explicou que em 2007 a modelo viajou para Portugal, mas teve de obter uma autorização especial da embaixada do Brasil para poder sair do país, já que no decorrer da sua estadia em terras lusas perdeu o passaporte.

Passaram mais de 15 anos da morte de Eliza Samudio. O seu desaparecimento abalou um país, mas alertou-o também para o drama do feminicídio. Hoje, o seu filho Bruno Samudio de Souza, entretanto reconhecido pelo pai, que conseguiu uma redução de pena e já saiu da prisão, alinha como guarda-redes na formação do Botafogo.


O jovem de 15 anos criado pela avó Sonia, a quem chama mãe, defende a baliza da equipa sub-17 do emblema carioca e já foi chamado a representar a seleção brasileira de sub-15. Foi por volta dos 8 anos que o pequeno soube a verdade sobre os pais, quando a avó já não conseguia fugir às perguntas difíceis que o neto lhe fazia.
Psicologicamente acompanhado desde criança, Bruninho “tem uma cabeça muito tranquila” com toda esta tragédia. Quem o garante é a sua avó Sónia, que revela ainda que sempre procurou aproximar Bruno da sua mãe através de fotografias.
Bruno diz querer ser um guarda-redes decisivo, que ajude a garantir títulos para o Botafogo, mas também para a seleção brasileira. Segundo a avó, “muito focado naquilo que faz”, o jovem prodígio é conhecido entre os seus pela entrega. Geraldo Harada, o primeiro treinador de Bruninho, diz que rapidamente se impressionou com a determinação do jovem em superar-se.
Quando a vida o desafia, Bruninho dá a cara. Olha de frente a adversidade, e ignora aquilo que nada de bom trás. Várias vezes provocado por adeptos adversários, que fazem insinuações sobre a morte da sua mãe, o jovem dá lições de elevação e foca-se apenas no que o faz feliz: jogar futebol.