No final da segunda Guerra Mundial a Europa estava economicamente destroçada. Tornou-se imperativo a criação de um mercado sem fronteiras internas,...
No final da segunda Guerra Mundial a Europa estava economicamente destroçada.
Tornou-se imperativo a criação de um mercado sem fronteiras internas, permitindo a livre circulação de mercadorias, serviços, pessoas e capitais. Um mercado com dimensão que permitisse às empresas europeias crescerem e modernizarem-se, de forma a terem condições para competirem com uma pujante economia dos Estados Unidos da América.
Em 1951, a França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo deram um primeiro passo nesse sentido com a fundação da CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço).
Em 1957, seguiu-se a criação da CEE (Comunidade Económica Europeia), instituída pelo Tratado de Roma, tendo em vista a convergência política, económica e estratégica da Europa.
Durante décadas o processo de construção europeia conseguiu a manutenção da paz da segurança, a sua reconstrução e o crescimento económico, o fortalecimento da aliança atlântica com os EUA e a influência e o respeito da Europa no mundo.
A Europa assumiu-se no mundo pela via de líderes políticos fortes e corajosos, desde Margaret Thatcher, François Mitterrand, Helmut Kohl, passando por Filipe Gonzalez ou Jacques Delors. Vivemos tempos em que a política foi feita por autores que assumiram a construção de um verdadeiro projecto comum europeu.
Com a saída da cena e da liderança política destes líderes, o espaço político europeu passou a ser ocupado por lideranças políticas frouxas assentes na dialéctica vazia do “politicamente correcto” com Tony Blair, David Cameron, José Maria Aznar, Pedro Sanchez, François Hollande, Emmanuel Macron, Durão Barroso ou Ursula von der Leyen, que não conseguiram dar respostas aos problemas concretos da vida dos europeus e da Europa.
Do outro lado do Atlântico, nos EUA passou-se exactamente o mesmo com lideranças sem coragem política, com a eleição de George W. Bush, Barack Obama ou Joe Biden.
Em simultâneo, durante a década de 90 do século passado e neste início do século XXI, assistimos a uma ascensão meteórica da China que conduziu a uma perda acentuada da Europa do ponto de vista económico e demográfico, que deslocou o eixo do desenvolvimento económico do Atlântico para o Pacífico.
Um processo de perda que se acentuou nos últimos 20 anos com a falta de investimento na economia Europeia, o atraso tecnológico que deixou para trás o “velho continente” face aos EUA e à China em termos de inovação e uma vulnerabilidade energética que a guerra na Ucrânia expôs de forma clarividente a indústria, nomeadamente a indústria pesada alemã.
A invasão russa na Ucrânia evidenciou também a fragilidade da Europa do ponto de vista da defesa militar que se acentuou com a reeleição, em 2024, de Donald Trump, com uma postura nova face à política externa norte-americana, que obrigou a Europa a repensar rapidamente a sua capacidade militar de forma a reduzir a dependência geopolítica.
A questão da autonomia de defesa poderá ser mesmo o ponto de ruptura europeia, sem o apoio incondicional de Washington, como sempre o conhecemos, desde a assinatura em 4 de Abril de 1949, do Tratado do Atlântico Norte.
Será a Europa capaz de se unir para criar uma força militar credível, ou poderemos estar perante o início da fragmentação política entre os 27 estados-membros que poderá colocar em causa essa necessária e inevitável evolução?
É tempo de olhar a sério para o Plano de Mario Draghi que defende que a Europa deve escolher entre agir com políticas de investimento ousadas, onde terá que constar, hoje em dia, uma política única defesa militar europeia a sério, ou enfrentar uma lenta agonia de declínio económico e a chacota de um Trump que parece afirmar uma nova ordem política mundial, assente na lei do mais forte militarmente, como deixou bem patente na recente intervenção militar na Venezuela, reforçando a ideia de que poderá fazer algo de muito semelhante na Gronelândia, nos próximos meses.
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)