Sejamos claros, para começar: quem se movimente nos meios jornalísticos, nos últimos seis anos, só poderá dizer que é a...
Sejamos claros, para começar: quem se movimente nos meios jornalísticos, nos últimos seis anos, só poderá dizer que é a primeira vez que ouve falar de “uma história esquisita” envolvendo o nome de Cotrim de Figueiredo se for muito mal informado ou, em alternativa, perfeitamente hipócrita. Isso não dá chancela de verídica à notícia que, desde ontem, ensombra o percurso do candidato a Belém mas faz uma inicial separação de águas que auxilia qualquer análise minimamente séria do caso.
Nada me move contra nenhum dos “dois lados” desta questão: nem contra a mulher que aponta o dedo ao candidato nem contra o candidato que se defende da acusação. Mas, por outro lado, tudo me move contra quem me quer fazer passar por idiota e, manifestamente, neste caso, há uma das duas partes que o tenta. Sem querer definir quem fala verdade nesta história (em rigor, só perante factos e nunca por causa de meras alegações o conseguiria), não posso deixar de avaliar alguns dos dados disponíveis.
O que me leva à questão do momento. Existirá inocência na coincidência entre o timing de uma acusação de assédio sexual e o instante político em que ela é feita (na última semana de uma campanha eleitoral e visando um dos candidatos)?
À boleia do princípio da inocência, e supondo que a alegação é falsa, ela dificilmente poderia ter maior eficácia como arma de “campanha negra”. A poucos dias de sermos chamados às urnas, o candidato deixa de conseguir passar a sua mensagem, dificilmente evita perguntas complicadas por parte dos jornalistas, corre o risco de ver cair sobre si uma espécie de efeito ‘Me Too’ e ainda deixa pendente a hipótese de (na eventualidade de ser eleito) não ser a sua campanha mas antes o seu mandato como Presidente da República a ser perseguido por este caso, sobretudo a partir do momento em que Cotrim de Figueiredo seja coerente com aquilo que ontem afirmou e processe criminalmente a autora da acusação. E sobre isso é bom que não seja ingénuo ou se fie na falta de memória: será recordado sobejas vezes de que, quando sentiu a sua honorabilidade atacada, anunciou que iria recorrer aos tribunais.
Mas a acusação pode também ser verdadeira: é bom não perder essa hipótese de vista. Nesse caso, como afastar a ideia de que ela é oportunística no momento? É um exercício fácil e quase de senso comum: não é necessário ouvir uma assembleia de especialistas para sermos sensíveis ao efeito de ‘trigger’ que pode ter para alguém que se sente alvo de um crime ao ver o presumível autor a seguir, indiferentemente, a sua vida. Agora, imagine-se que o mesmo é candidato a uma função de relevo…
Devo, aliás, recordar que quando era Donald Trump que estava na mira das notícias, por conta de acusações não muito diferentes, e num momento com algumas similitudes (era também candidato a presidente), não me lembro de tantas reações lusitanas a tentar desacreditar o testemunho de quem o acusava.
O que me leva à segunda questão, que enunciei no título e que é a dos “graus de indignação”.
Em março do ano passado, uma denúncia anónima precipitou uma crise política, a queda de um Governo e a convocação de eleições antecipadas. Gastaram-se rios de tinta em notícias, centenas de horas de debate televisivo e milhares de posts em todas as redes sociais. O tom geral era o de indignação em relação às suspeitas postas a circular por uma denúncia anónima que era valorizada quase como um libelo acusatório.
Nem um ano depois, há uma acusação assinada – uma acusação assinada! – (repito e sublinho para que se entenda bem o antagonismo do conceito face ao de denúncia anónima) e a primeira barragem de reações é de desvalorização da mesma.
Não sei se Inês Bichão vai conseguir provar o que afirma, mas uma coisa já provou: que, por muito que nos sintamos uma metrópole do século XXI, continuamos a ser um vilarejo medieval, onde um “bufo” que não dá o rosto é um justiceiro e uma pessoa que se expõe na denúncia do que alega ser um crime é um alvo a abater.