Num momento em que os debates políticos sobre imigração se tornam cada vez mais polarizados, convém recordar um facto que...
Num momento em que os debates políticos sobre imigração se tornam cada vez mais polarizados, convém recordar um facto que a tradição cristã não deixa margem para contestação: uma postura anti-imigrantes é incompatível com o cristianismo. Não se trata de uma opinião ideológica; trata-se de uma conclusão teológica, bíblica e patrística.
Desde o Génesis, onde todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, até ao Novo Testamento, onde Cristo identifica o estrangeiro com Ele próprio — “era estrangeiro e acolhestes-me” — a mensagem é inequívoca: a dignidade humana não conhece fronteiras. Rejeitar alguém por ser de outro país é rejeitar a imagem de Deus que essa pessoa carrega.
A tradição dos Padres da Igreja reforça esta visão. São João Crisóstomo dizia que “o estrangeiro é o mais precioso dos hóspedes, porque nele Cristo se disfarça”. Basílio de Cesareia advertia que ignorar o migrante é “fechar a porta ao próprio Cristo”. Santo Agostinho lembrava que todos somos “peregrinos neste mundo”, e que tratar o estrangeiro como ameaça é esquecer a nossa própria condição. Tomás de Aquino, séculos mais tarde, sintetizou a questão de maneira cristalina: a caridade cristã é universal, e exclui qualquer discriminação baseada na origem.
Ora, no contexto político actual, ouvimos frequentemente discursos que demonizam os imigrantes, descrevendo-os como “invasões” ou “ameaças culturais”. Mas estes discursos, apesar de politicamente rentáveis, são teologicamente indefensáveis. A lógica do Evangelho não admite muros construídos sobre o medo nem fronteiras erguidas sobre a indiferença. A indiferença, aliás, foi justamente caracterizada pelo Papa Francisco como “uma forma moderna de idolatria”.
Nenhuma política pública está isenta de complexidade. É legítimo discutir modelos de integração, capacidade de acolhimento e responsabilidades institucionais. O que não é legítimo — do ponto de vista cristão — é transformar seres humanos em problemas, negar-lhes dignidade, ou construir identidades políticas baseadas na rejeição dos mais vulneráveis. A ética cristã não pode ser instrumentalizada para legitimar hostilidade. O cristianismo não é um escudo cultural; é um mandamento moral.
Quando um cristão, ou alguém como o líder do Chega, que invoca a herança cristã para defender políticas excludentes, escolhe o medo e o ressentimento em vez da hospitalidade e da solidariedade, não está a defender o cristianismo. Está a contradizê-lo. A pergunta que Cristo disse que faria no fim dos tempos continua a ser a mesma: “Acolhestes-me ou rejeitastes-me?” E, nesta lógica, a forma como tratamos os imigrantes — sejam refugiados de guerra, trabalhadores económicos ou famílias em busca de futuro — torna-se um teste à autenticidade da fé.
Ser contra os imigrantes não é apenas uma divergência política. É uma ruptura com o coração do Evangelho.
E num país que se diz de raízes cristãs, isso deveria fazer-nos pensar.
Muito.