Há uma ilha que tem gelado as relações entre a Europa e os EUA. A Gronelândia, região autónoma que integra...
Há uma ilha que tem gelado as relações entre a Europa e os EUA. A Gronelândia, região autónoma que integra o Reino da Dinamarca, tem sido motivo de debate, por estar envolta numa controvérsia que se arrasta desde que o Presidente Trump tomou posse. Porém, recentemente, intensificou-se a vontade americana de assumir o controlo da ilha.
Ora, quem conhece a história, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, sabe da importância estratégica da Gronelândia para a defesa do hemisfério norte, sendo o Ártico um posto estratégico do flanco norte. Por isso, é verdade que se trata de um ativo de segurança americana e europeia, razão pela qual a NATO mantém presença na região.
Na realidade, o interesse atual está menos ligado à segurança e mais ao que a ilha tem para oferecer em termos de recursos naturais, uma vez que já é, de facto, um ativo de segurança americana, mesmo sem ter bandeira hasteada. Daí a proposta de compra feita por Donald Trump e a imposição de tarifas de 10% e 25% até à celebração de um acordo ser ainda mais estranha, pois os gronelandeses até podem não querer continuar a ser dinamarqueses, mas também não querem ser americanos. Mesmo dentro dos EUA, não parece existir grande apoio popular a uma hipotética tomada da Gronelândia.
Não obstante, ao mesmo tempo, é necessário compreender como é possível cooperar para a segurança dos países da NATO, sem que isso passe por conceder a interesses exclusivos dos americanos, independentemente das ameaças de tarifas.
Este é um ponto decisivo para a Europa. Se ceder por medo, mostrará ao mundo que não existem linhas vermelhas e ficamos à mercê dos interesses estrangeiros. Isto, contudo, exige que se traduza numa posição política concreta. E foi precisamente nesse plano, ainda que longe de uma resposta concertada, que foi emitido um comunicado conjunto assinado por vários aliados europeus da NATO, a 18 de janeiro, onde foram traçadas linhas bem definidas, sendo a integridade territorial uma delas.
A questão da Gronelândia não é, por isso, um episódio isolado, é um teste político e estratégico à maturidade europeia. Ou a Europa afirma já, com clareza, que a cooperação entre aliados assenta no respeito mútuo e no direito internacional, ou aceita um papel de subalterno. Uma Europa que abdica de defender os seus limites hoje dificilmente os conseguirá impor amanhã.