Como dizia Victor da Cunha Rego, “o mundo está perigoso”. Ele dizia-o num sentido ontológico, mas Vasco Pulido Valente trouxe...
Como dizia Victor da Cunha Rego, “o mundo está perigoso”. Ele dizia-o num sentido ontológico, mas Vasco Pulido Valente trouxe a frase para a espuma dos dias. Em ambos os sentidos ela está hoje mais válida do que nunca.
Veja-se à superfície.
Ucrânia, uma guerra sem fim, duas alegações em confronto num palco de cereais, minério e terras raras, milhares de mortos, cidades e indústrias destruídas, campos devastados, famílias desmembradas, abutres ganhando nas armas e munições para depois ganharem na reconstrução. Aqui a três mil quilómetros, ao alcance de um braço da História.
Gaza, o teatro da hipocrisia, o fanatismo de armas na mão, o Hamas no subterrâneo como metástases de um cancro sem cura, cobardia entrincheirada atrás dos corpos de mulheres e crianças, engodando idiotas úteis em flotilhas de ódio, massacre de décadas em síntese numa faixa de sangue.
Irão, a velha sentença dos gurus de negro vestidos, caricaturas sinistras e lúgubres, silhuetas de abutres cevando-se nas suas presas, um povo arrancado à abundância para entrar nas cavernas da pré-história, aviltado, espancado, humilhado, assassinado nas praças em nome de um versículo satânico.
Sudão, mil dias de guerra e a maior crise humanitária do mundo, al-Burhans contra Mohameds até ao extermínio, a Cartum de Daniel Comboni às portas da morte, Darfur em putrefação, 150 mil vítimas civis, três milhões de refugiados nos países vizinhos, oito milhões no limiar da fome extrema, onze milhões sem lar, trinta milhões rateando pão duro e água choca em campos de concentração.
Birmânia, a guerra civil à mão armada, uma junta militar igual a todas as juntas militares, um quarto dos assentos no pseudo-parlamento reservados aos coronéis, simulacro de eleições, o maior partido da oposição ilegalizado, os outros a caminho, Aung San Suu Kyi sempre atrás das grades, um terramoto como castigo, pedintes e sobreviventes implorando ajuda a um mundo ensurdecido pelos seus próprios gritos.
Estados mártires do Sahel, epicentro do terrorismo global, Burkina Faso, Mali e Níger fechando-se como conchas na sua miséria, a Rússia cobiçando refinarias e searas, vastidões em troca de migalhas, inferno regido por jihadistas e Estado Islâmico, dilacerado pelo Grupo Wagner e juntas militares, crimes de guerra que nunca serão estatística, fome e doença no vale catastrófico.
Coreias com o dedo no gatilho. A Síria estilhaçada na viuvez de al-Assad. A Venezuela trancada em casa com medo de esta noite, esta tarde, esta manhã. O narco-Estado colombiano estraçalhado por rotas, cartéis, brigadas, exércitos. A Gronelândia acordada ouvindo ranger as botas no gelo antigo. A OTAN em crise. A Europa em transe.
Sr. motorista, abrande um pouco – que eu quero descer!
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Cá pela paróquia, já enjoa ouvir este a dizer que vota naquele e aquele a dizer que não vota neste. ¿Então o voto não era secreto, meninos?