A relação da Europa com a administração Trump está a ser marcada por uma sensação desconfortável de déjà-vu: a perceção...
A relação da Europa com a administração Trump está a ser marcada por uma sensação desconfortável de déjà-vu: a perceção de que o aliado central do pós-guerra se converteu num fator de instabilidade sistémica.
A deriva autocrática, o desprezo ostensivo pelas regras multilaterais e a reabilitação de uma lógica imperial de zonas de influência colocam à Europa uma questão simples e brutal: adaptar-se ou afirmar-se.
Vários líderes europeus têm descrito Trump em termos que roçam o registo clínico. Ainda não se trata, evidentemente, de diagnósticos médicos definitivos, mas já faltou mais para o serem.
Por exemplo o chanceler alemão Friedrich Merz não hesitou, recentemente, em identificar no comportamento do Presidente americano, sinais de imprevisibilidade, impulsividade e uma relação problemática com a realidade factual.
Esta leitura — partilhada de forma mais ou menos explícita, embora “escondida” em várias capitais — visa sublinhar um risco central: quando o poder máximo é exercido sem controlo (“cheks and balances”), as instituições tornam-se decorativas e os aliados reféns do humor do poder de turno.
Seria, contudo, um erro reduzir tudo à psicologia de Trump. Por trás da personagem está uma ideologia estruturada, ainda que intelectualmente regressiva: um soberanismo ocidental que recupera as doutrinas isolacionistas do século XIX, (Doutrina Monroe-1823-sob o lema “América para os americanos”) e que pode ser extremamente perigosa para o futuro equilíbrio geoestratégico.
Na realidade Trump é apenas a face visível, ruidosa e por vezes anedótica de uma política mais profunda e mais perigosa, que rejeita o multilateralismo, desvaloriza alianças duradouras e transforma a política externa num exercício de coerção transacional. A caricatura distrai; a ideologia corrói.
Assim a resposta europeia não pode continuar a oscilar entre a indignação moral e a dependência estratégica e, sobretudo, não pode ficar à espera do resultado das eleições intercalares americanas do próximo novembro.
No plano político, a União Europeia tem de assumir, de imediato, uma autonomia decisória efetiva, abandonando a ilusão de um regresso automático de Washington à normalidade liberal.
No plano da defesa, isso implica acelerar a integração de capacidades militares, reforçar a base industrial europeia e aceitar que a segurança do continente não pode permanecer indefinidamente subcontratada.
Mas é no plano económico-comercial, que começam a surgir os primeiros sinais de reação inteligente. Os recentes acordos com o Mercosul e com a Índia devem ser lidos não apenas como iniciativas de abertura comercial, mas como respostas estratégicas à agressividade trumpista em matéria de tarifas aduaneiras.
Ao diversificar parceiros e consolidar cadeias de valor alternativas, a Europa reduz a sua vulnerabilidade a choques unilaterais vindos de Washington e reafirma o comércio como instrumento geopolítico.
Tudo isto será decisivo se, entretanto, as reformas em curso não forem capturadas por grupos corporativos, com reduzida visão estratégica e acentuado abuso de uma cultura de “direitos adquiridos” que tem cada vez menos sentido num mundo em profunda transformação.
Só que isso é um risco que existe nas democracias liberais que só pode ser anulado com transparência, esclarecimento, pedagogia e coesão social.
Existe ainda um terreno menos explorado, mas potencialmente decisivo: o financeiro. A dívida pública americana, de dimensão histórica, constitui uma fragilidade estrutural.
A Europa — pilar do sistema financeiro global e grande detentora de ativos denominados em dólares — dispõe aqui de um instrumento de dissuasão indirecta. Não se trata de uma guerra financeira aberta, mas da utilização coordenada de regras, mercados e política monetária como contrapeso a desvios sistemáticos à cooperação multilateral.
O simples facto de sinalizar que esse instrumento existe é um travão eficaz que será facilmente compreendido pelos interesses que se alinham por trás do espectáculo trumpiano.
Em suma, a Europa enfrenta não apenas Trump, mas o fim de uma era de conforto estratégico. Persistir na confusão entre prudência e passividade seria, desta vez, uma escolha verdadeiramente irresponsável.
Não há alternativa ao “confronto”. Com regras, mas determinado e para valer.