A companhia de teatro da política portuguesa levou à cena, na última semana, mais uma peça tragicómica. Não me refiro ao...
A companhia de teatro da política portuguesa levou à cena, na última semana, mais uma peça tragicómica.
Não me refiro ao drama – esse, sim, bem verdadeiro e pungente – vivido por largos milhares de portugueses que viram as suas existências levadas pelo vendaval e pela enxurrada. Refiro-me à ficção que desse drama fizeram inúmeras figuras públicas que pisaram o palco recitando os seus papéis.
A importância (metafórica e real) que o palco tem na representação política atingiu entre nós proporções irreais. Tão irreais como a figura daquele ministro que, enquanto o país desesperava na angústia, se entretinha a fazer filmes sobre a sua excelsa pessoa, ó-pra-ele-tão-incansável, posando ao telefone, em mangas de camisa, apontando para mapinhas a cores, em plena reunião com o estado-maior de desproteção incivil, teclando sirespzinho, apontando com o seu relógio-automático-para-emergências, o perfil roendo as unhas de preocupação ministerial, de cabeça exausta no climax da madrugada, a música de fundo acompanhando o ritmo de sua excelência a grandecíssima estrela de oliúde.
Dá que pensar – ver alguém, em idade adulta, com responsabilidade governamental, dar-se ao trabalho de contratar uma equipa de filmagens para se retratar nesta pose forjada, encenada, montada, descer ao ponto de se pensar a si mesmo como aquela coisa. A parte gaga. A auto-inebriação. O grotesco de nem sequer perceber quanto se oferece à zombaria e ao escárnio.
Infelizmente, não é de hoje nem de ontem: o fenómeno tem já alguns anos e vem crescendo em progressão. Os nossos políticos não sabem viver fora do aquário esquizofrénico da televisão, das redes sociais, das apps. É para isso, e não para governar, que lá estão. É para isso que existem.
Não basta irem: é preciso que lá estejam os microfones. Não basta dizerem: é preciso que a frase seja recolhida no éter. Não basta fingirem que fazem: é indispensável que passem no telejornal das oito e sejam depois “replicados” no tiktok.
Isto explica que nos gabinetes, onde antes havia a preocupação de ter especialistas e consultores, proliferem hoje batalhões de peritos em “comunicação”. Profissionais do eco.
Isto explica que, mais do que a vida real, o que lhes importa é o registo do irreal. Tão irreal como a figura daquele ministro que, enquanto o país desesperava na angústia, se entretinha a cantar loas à bravura dos “seus homens”, tão absolutamente providenciais no socorro às populações – homens que, aliás, o cercavam durante a “conferência de imprensa”, olhares duros de estado-maior, homens que, de resto, mal a “conferência” acabou se enfiaram nas suas viaturas-de-socorro-de-emergência e regressaram aos quartéis, deixando as ditas populações entregues à sua proverbial desproteção incivil, enquanto a ministerial criatura se enfiava no carro para se dirigir a mais uma cegada para os microfones. Porque o que verdadeiramente estava a acontecer ali era, não um ato sério de um governante responsável, mas uma peça tragicómica da companhia de teatro da política portuguesa.
Como nada mais interessa para além da encenação, como o trabalho silencioso da prevenção, da organização, do planeamento não dá grandes angulares, daqui se despedem até à próxima enxurrada, ao próximo incêndio, ao próximo telejornal.
Vejam lá se os filmam bem a entrar para o helicóptero da desproteção incivil.