O embaixador Carlos Pires não é um anónimo, vulgar e despreocupado cidadão. Está acreditado pelo Presidente da República para representar...
O embaixador Carlos Pires não é um anónimo, vulgar e despreocupado cidadão. Está acreditado pelo Presidente da República para representar o Estado Português – por agora, em Singapura – e o Estado, ainda que se leve em conta o estado a que chegou, merece que o representem com asseio.
Há de apresentar-se impecável no fraque regulamentar: sobrecasaca sem nódoas, calças listadas com vincos alinhados, colete bem abotoado a condizer, nó da gravata irrepreensível, sapatos de brilho cintilante. Lá nisso, Carlos Pires cumpre os preceitos com a fé e fervor de um zelota. Falta-lhe o que não vem em letra de forma nos manuais do Ministério – o discernimento de que está a servir o País seja qual for o posto para onde o mandaram.
Recolhido na longínqua Singapura, sente-se tão inacessível como um deus no Olimpo, convencido de que não tem explicações a dar ao País sobre as suas antigas relações com Jeffrey Epstein – o multimilionário com um fraquinho por meninas e explorava uma rede de tráfico sexual para prazer de uns tantos senhores entre os mais poderosos do mundo.
Carlos Pires – como o 24Horas noticiou – trocou e-mails com Epstein, em novembro de 2010, ainda era um adjunto no Gabinete do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado.
O silêncio do atual embaixador – a quem não se lhe arranca uma aclaração, um comentário, um parecer, uma opinião – permite todas as suspeitas: aceitou o convite de Epstein para uns dias em Nova Iorque? Viajou no jato privado denominado ‘Lolita Express’? Experimentou as suites do faustoso apartamento de Paris? Conheceu os quartos da mansão na ilha de Little St. James – e entregou-se a secretos prazeres?
O Presidente Marcelo, que lhe endereçou as cartas credenciais nomeando-o representante de Portugal em Singapura, não quer saber de nada. Nem se digna a um comentário – ele que tudo comenta – exigido pelo 24Horas. O ministro da tutela, Paulo Rangel, o mesmo silêncio cúmplice.
Moral da história: tudo com dantes, quartel-general em Abrantes.