O Governo classificou como tesouros nacionais dois fonogramas ligados à Revolução de 25 de Abril de 1974, reconhecendo o seu valor histórico e simbólico para a democracia em Portugal. Entre estes registos encontra-se a emissão radiofónica que incluiu a canção ‘Grândola, Vila Morena’, de José Afonso, utilizada como senha para o início das operações militares que levaram à queda do regime ditatorial. Estes materiais sonoros representam um testemunho único de um dos momentos mais marcantes da nossa história contemporânea.
Uma das bobinas agora protegidas pertence à Fundação Mário Soares e Maria Barroso e contém a gravação do programa ‘Limite’, transmitido pela Rádio Renascença na madrugada de 25 de abril de 1974. Foi nesse momento que ‘Grândola, Vila Morena’ foi difundida como sinal para o arranque da revolução. Embora a canção não estivesse formalmente proibida pelo regime, o seu conteúdo e mensagem de fraternidade tornaram-na um poderoso símbolo de resistência e de esperança para os portugueses.
O segundo conjunto de bobinas, pertencente à RTP – Rádio e Televisão de Portugal, reúne gravações do Primeiro Encontro da Canção Portuguesa, realizado a 29 de março de 1974, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Este evento reuniu vários artistas ligados à música de intervenção e teve um papel importante no ambiente cultural e político que antecedeu a revolução. As gravações ajudam a compreender o contexto em que ‘Grândola, Vila Morena’ ganhou destaque e se afirmou como hino da liberdade.
O processo de classificação destes fonogramas teve início em 2024 e foi concluído com a publicação oficial no Diário da República, em fevereiro de 2026. Com esta decisão, o Estado português pretende garantir a preservação e valorização de documentos sonoros fundamentais para a memória coletiva, impedindo a sua perda ou degradação ao longo do tempo. Ao serem reconhecidos como bens culturais de elevado interesse histórico, estes registos reforçam a ligação entre a música, a rádio e a luta pela liberdade, sublinhando o papel central que a cultura teve na construção da democracia em Portugal.