O Congresso do Peru elegeu, na madrugada desta quinta-feira, o deputado José María Balcázar Zelada como o novo presidente interino do país. O antigo magistrado de 83 anos torna-se o oitavo chefe de Estado a assumir o poder em apenas dez anos, num cenário de profunda fragmentação política e descrença institucional.
A eleição de Balcázar ocorreu após a destituição de José Jerí, que permaneceu apenas quatro meses no cargo. Jerí foi afastado pelo Parlamento sob acusações de “incapacidade moral”, na sequência da revelação de reuniões não declaradas com empresários estrangeiros e alegado tráfico de influências.
O percurso e as sombras do novo presidente
Natural de Cajamarca, Balcázar possui uma longa carreira no sistema judiciário. Doutor em Direito, foi juiz da Segunda Sala Penal de Apelações de Lambayeque e chegou a atuar como juiz provisório no Supremo Tribunal de Justiça do Peru. No entanto, o seu currículo é marcado por expulsões de ordens profissionais e processos judiciais.
O novo presidente interino foi expulso definitivamente da Ordem dos Advogados de Lambayeque (ICAL) após ser acusado de apropriação ilícita de fundos durante o seu mandato como bastonário da instituição. Investigações apontam para um desvio de cerca de 2,7 milhões de soles (moeda local) que teriam sido depositados em contas pessoais. Além disso, o seu nome consta em inquéritos recentes sobre suborno e troca de favores com a antiga procuradora-geral, Patricia Benavides.
Controvérsias éticas
Para além dos problemas com a justiça, Balcázar é uma figura que gera forte repúdio em diversos setores da sociedade civil pelas suas posições sobre temas sensíveis. A polémica mais grave ocorreu durante um debate legislativo sobre a proibição do casamento infantil no Peru.
Na ocasião, Balcázar manifestou-se contra a proibição, alegando que as relações sexuais na adolescência poderiam “ajudar o futuro psicológico da mulher”. O político chegou a afirmar publicamente que, a partir dos 14 anos, “muitas jovens já estão grávidas e a lei não deve proibir esses enlaces”. Mais recentemente, o político também foi alvo de críticas por declarações consideradas complacentes sobre relações entre professores e alunos.
Mandato de transição
Apesar do perfil controverso, Balcázar conseguiu reunir o apoio necessário no Parlamento para derrotar a conservadora María del Carmen Alva por 60 votos contra 46. No seu discurso de posse, o novo presidente prometeu manter a estabilidade económica e assegurar um processo eleitoral transparente.
O mandato de Balcázar terá a duração de pouco mais de cinco meses. A sua missão prioritária é garantir a realização das eleições gerais marcadas para o dia 12 de abril e conduzir o país até 28 de julho, data em que deverá entregar a faixa presidencial ao vencedor das urnas.