Não é por falta de recursos que os hospitais Santo António, no Porto, Pedro Hispano, em Matosinhos, Padre Américo, em Penafiel, e São Pedro, em Vila Real, não acodem às centenas de doentes cardíacos que esperam e desesperam por cirurgia ou implantação de válvulas. Têm blocos cirúrgicos, cirurgiões e competência técnica. Só lhes falta a autorização do Ministério da Saúde.
Todos os anos, segundo fontes médicas, são referenciados no Norte do país cerca de 600 doentes que necessitam de cirurgias. A lista de espera não tem parado de crescer. Só não é maior porque os únicos três hospitais da região com cirurgia cardiotorácica – o de São João, no Porto, o de Braga e o de Gaia – não aceitam mais doentes.
Doentes morrem à espera de tratamento. Salvam-se os que podem recorrer aos cinco hospitais privados do Grande Porto – Lusíadas, CUF, Arrábida, Grupo Trofa, casa de Saúde da Boavista – com serviços de cirurgia cardíaca e implantação de válvulas aórticas. “Há quem venda tudo o que pode para conseguir pagar 50 ou 60 mil euros por uma cirurgia”, diz ao 24Horas um cirurgião que pede para não ser identificado.
As cirurgias cardíacas no Norte do país têm sido um apetecível maná para a iniciativa privada. O negócio, de acordo com a mesma fonte, vale cerca de oito milhões de euros por ano.
Quando os quatro hospitais à espera de autorização do Ministério para se tornarem centros de referência começarem a trabalhar, os privados vão acabar por sofrer uma considerável quebra de receitas. É por estas e por outras que paira uma suspeita: consecutivos governos têm sido sensíveis a pressão dos privados? Entre a comunidade médica do Norte há quem garanta que sim.
O caso do Hospital de Santo António é exemplar. ‘Aguardamos há 14 anos autorização para tratar doentes que necessitam de cirurgia cardíaca ou implantação de válvulas”, diz ao 24Horas André Luz, diretor do serviço de cardiologia.
Responsáveis pelos quatro hospitais do Norte que reclamam autorização para cirurgias reúnem-se amanhã, dia 20, com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins.
A ver se é desta que os hospitais são autorizados a salvar vidas…