Num mundo marcado por pandemias, incêndios extremos, cheias e conflitos regionais, a gestão de catástrofes deixou de ser um tema...
Num mundo marcado por pandemias, incêndios extremos, cheias e conflitos regionais, a gestão de catástrofes deixou de ser um tema técnico reservado à proteção civil. Tornou-se um verdadeiro teste à liderança estratégica e política. Quando tudo falha, o que distingue os países e as organizações resilientes não é apenas o “Plano”, é a qualidade da liderança.
A ainda recente pandemia Covid-19 expôs fragilidades estruturais em sistemas de saúde e cadeias de abastecimento por todo o Globo. Ao mesmo tempo, mostrou como decisões rápidas, comunicação clara e coordenação interinstitucional podem salvar vidas. A diferença entre o pânico e a ordem raramente está nos recursos disponíveis, mas antes na capacidade de liderança sob pressão e nos líderes que se assumem como tal.
A verdadeira liderança em contexto de catástrofe começa antes do desastre. Países como o Japão, por exemplo, habituados a sismos e tsunamis, investiram durante décadas numa cultura de prevenção, treino regular das pessoas e infraestruturas resilientes. O resultado não é a ausência de impacto, mas a redução dramática de danos e vítimas.
Um exemplo de contraste, foi a resposta ao furacão Katrina nos Estados Unidos, que evidenciou falhas de coordenação política e institucional. A lição resultou bem clara, pois os planos existem em quase todos os governos, mas o que falha é a articulação entre níveis de decisão e a coragem de assumir responsabilidades.
Em momentos críticos, o Líder enfrenta um dilema de decidir com informação quase sempre incompleta e imprecisa. A hesitação prolonga os danos, mas a decisão precipitada pode agravá-los. É aqui que a qualidade da Liderança se evidência, na confiança, no assumir riscos e na preparação técnica e psicológica para o desafio.
Durante os incêndios de 2017, o nosso país viveu uma das suas maiores tragédias recentes. Mais do que os meios no terreno, o debate centrou-se na coordenação estratégica (ou falta dela) e na responsabilização política. A comunicação inconsistente e a perceção de desorganização amplificaram a crise. Numa era Digital, onde cada decisão é escrutinada em tempo real, a liderança exige transparência absoluta e crua.
As catástrofes ultrapassam fronteiras, sejam alterações climáticas, ciberataques ou pandemias, e todas exigem cooperação internacional e parcerias público- privadas. Empresas de energia, telecomunicações e logística são hoje peças centrais na resposta a emergências, sem esquecer as Forças Armadas.
O modelo de resposta coordenada promovido pela União Europeia, através do seu Mecanismo de Proteção Civil mostra que integração e partilha de recursos reduzem tempos de reação. Mas a eficácia depende, novamente, de liderança
política capaz de alinhar interesses nacionais com objetivos comuns, em tempo útil.
Mas a gestão de catástrofes não é apenas logística e coordenação…é também gestão emocional coletiva. Um líder eficaz reconhece o medo da população, comunica com simplicidade e empatia e mantém foco na solução, não alimenta pânico, nem minimiza riscos e muito menos se autopromove.
A gestão de catástrofes é hoje um dos maiores testes à qualidade das democracias. Não basta reagir, é preciso preparar, coordenar e comunicar. A liderança estratégica e política revela-se, no fundo, na capacidade de transformar momentos de rutura em oportunidades de reforço institucional.
Porque no meio do caos, o que a sociedade procura não é apenas um gestor, mas acima de tudo um Líder.
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e business advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP