Em 2025, os emigrantes portugueses enviaram para Portugal 4.387,67 milhões de euros — um aumento de 2,14% face ao ano anterior. Este número não é apenas uma estatística económica: é a prova concreta de um compromisso contínuo com o país de origem. Mesmo longe, os emigrantes continuam a sustentar famílias, a investir, a dinamizar economias locais e a contribuir para a estabilidade financeira nacional.
Mas quando a tragédia bate à porta, será que esse compromisso é reconhecido na mesma medida?
A passagem das depressões (Depressão Kristin, Depressão Leonardo e Depressão Marta) provocou 16 mortes, centenas de feridos, desalojados e elevados prejuízos materiais. Casas destruídas, empresas arrasadas, infraestruturas danificadas, estradas cortadas, falhas de energia, água e comunicações — um cenário de devastação particularmente intenso nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
Perante esta realidade, muitos emigrantes não hesitaram. Viajaram para Portugal, ajudaram familiares, repararam estragos, apoiaram financeiramente obras urgentes. Há mesmo relatos de empresas sediadas no estrangeiro que enviaram trabalhadores para auxiliar na recuperação. Uma vez mais, a diáspora mostrou que não vira costas ao país.
Contudo, no momento de definir os apoios públicos, os portugueses residentes no estrangeiro ficaram de fora.
A portaria de 9 de fevereiro, que regulamenta a Resolução do Conselho de Ministros n.º 17-A/2026, estabelece que os apoios à reconstrução se destinam a “habitação própria e permanente”. Na prática, este critério exclui emigrantes que, embora proprietários de casa em Portugal, não tenham ali residência fiscal permanente.
Esta decisão tem que gerar contestação.O Governo esta a discriminar os portugueses no estrangeiro e tem que rever imediatamente a medida para incluir também os emigrantes numa fase posterior.
A questão que se coloca é simples, mas profunda: pode o Estado aceitar as remessas enviadas pela diáspora como um pilar económico e, simultaneamente, excluí-la dos apoios em situações de calamidade?
É compreensível que o Governo priorize habitação permanente, sobretudo em cenários de recursos limitados. No entanto, ignorar completamente os emigrantes cria um sentimento de injustiça. Muitos mantêm casas em Portugal que representam poupanças de uma vida inteira. São imóveis que pagam impostos, sustentam economia local e preservam laços familiares e culturais.
Não se trata de sobrepor direitos, mas de encontrar soluções equilibradas. Poderia existir um regime complementar, critérios proporcionais ou mecanismos faseados que incluíssem também os residentes no estrangeiro. O que não pode acontecer é a mensagem implícita de que os emigrantes são lembrados apenas quando é preciso enviar dinheiro.
Portugal é um país de emigrantes. Sempre foi. A diáspora não é um detalhe estatístico — é parte integrante da identidade nacional. Num momento de tragédia, essa pertença deve traduzir-se não apenas em discursos de reconhecimento, mas em políticas concretas de inclusão.
Se os emigrantes nunca deixaram Portugal para trás, talvez esteja na altura de Portugal não os deixar para trás também.