Coitada da Bianca, aos 27 anos morreu de bela. Estava a banhos no Morro de Maluf, Praia de Pitangueiras, prefeitura...
Coitada da Bianca, aos 27 anos morreu de bela. Estava a banhos no Morro de Maluf, Praia de Pitangueiras, prefeitura de Guarujá – ¿e quem diria que ali ia ficar, esticada em seu botoque, o rimmel escorrendo de sua pestana sintética, ardendo de infeção em seu silicone?
Era influencer, cê sabe, aquela coisa de filmar a gente todo o tempo a fingir que existe e postar na net pra ganhar a vida: produto de beleza, artigo da moda, evento mediático. Vivia dos cliques, dos anúncios que se colavam ao seu podjicaste, à sua pele, 60 mil seguidores só no instagrame. Mulher valente. Assim fugiu da miséria em Mauá, meio caminho entre Pitangueiras e São Paulo, a grande cidade onde montou negócio.
Cabocla engenhosa, Bianca Dias. Seu corpo era tudo: o pretexto e a consequência, o princípio e o fim, local e ferramenta de trabalho, reclame e chamariz de cliente, altar dos fiéis e miragem de Maluf refletindo-se nas águas quentes da costa de Guarujá.
Vivia pra seu corpo e seu corpo vivia pra ela. Por isso, como influencer, era corporeamente que influenciava seus influenciados. Melhor que comentador de televisão, que tem de dizer baboseira para ganhar a avença, Bianca nem precisava falar. Bastava-lhe revirar os olhos, assim ó, fingir que mostrava suas tatuagens para na verdade mostrar seu guelamúr e suas mamas, dengar seu rabo numa preguiça de Pitangueiras, esticar seus lábios grossos de falsa mulata e tremeluzir sua pestana de plástico – e estava feita sua declaração.
Nem precisava balbuciar uma palavra de influencer: sua influência era muda, body language elevada à potência gama, a ponto de ser modelo para todas as influencers deste mundo, abelha-mestra de uma profissão tão etérea que não se pode explicar. Por isso, a sua mensagem de perfeito vácuo deixava seus influenciados sob a influência de um certo não sei o quê. O nada era o seu métiê.
Um dia, faz agora um mês, entrou naquela clínica de São Paulo para aferir seus silicones, que o corpo-ferramenta, como qualquer ferramenta, precisa de manutenção, afinação, calibragem. Tudo correu joia, cirurgia anestesiada com a mesma anestesia de seus podjicastes, um ivo pitanguy de segundo andar dando oquei e umas merecidas férias no Morro de Maluf. Foi então que tudo começou correndo mau.
Um xilique primeiro, um coma logo a seguir, a família Dias em angústia à porta do hospital – e a meio da noite o adido de imprensa bichíssimo confirmando o óbito com ademanes. Uma embolia pulmonar fulminante, uma síncope depois de uma apócope sem aférese, um silicone sob suspeita, e ei-la esticada na casa mortuária. Um verdadeiro acidente de trabalho, a bem dizer.
Em Mauá foi chorada uma noite inteira pela família Dias. O enterro já não entrou no seu podjicaste de pestana e tatuagem, tudo foi sepultado no cemitério municipal de São José, em Ribeirão Pires, no Ouro Fino Paulista. A notícia fúnebre galgou o éter e chegou às páginas interiores dos tabloides ingleses e teve ecos até na Nigéria, onde a agência noticiosa a chorou em língua hausa: “Mai tasiri Bianca Dias ya mutu daga ciwon huhu bayan tiyatar kwaskwarima”.
Agora que nos deixou, os enciclopedistas poderão contar a sua vida em poucas palavras: nascida em Mauá, aprendeu a ler brincando com bonecas, fez-se adolescente no asfalto da vida, descobriu a internet e abraçou o nada sob a forma de influencer, teve sucesso e um dia, depois de uma troca de mamas na oficina, um parafuso gripou e sucumbiu aquele soberbo local de trabalho que era todo nádegas, tatuagens, lábios grossos e aquele olhar assim ó.
A beleza a criou, a beleza a matou. E entre a criação e a morte ficou nada.
Filha da internet, do botok, afilhada do vácuo e do vento, abelha-mestra do planeta dos influenciados, uma vida chupada à nascença e cuspida na praia de Guarujá, carapaça seca. Bianca Dias. Agora eras, no instante seguinte nunca foste.
Eis o nada em todo o seu esplendor, ó.