A resistência de décadas parece ter finalmente cedido ao pragmatismo. Num movimento coordenado que apanhou muitos de surpresa pela rapidez, o Brasil e o Paraguai deram esta quarta-feira, dia 5, um passo de gigante para selar o maior tratado de livre comércio do planeta.
No Senado brasileiro, a votação foi um rolo compressor: unanimidade. Em Assunção, os senadores paraguaios seguiram o guião, deixando agora a decisão final nas mãos da sua Câmara de Deputados, que deverá carimbar o passaporte do acordo nos próximos dias.
O cenário mudou drasticamente desde fevereiro. Com a Argentina de Javier Milei e o Uruguai de Lacalle Pou já convertidos e com as ratificações no bolso, o Mercosul apresenta-se, pela primeira vez em 25 anos, como um bloco sem fissuras frente a Bruxelas. É um xeque-mate diplomático. Ao ‘limpar o terreno’ na América do Sul, os líderes latinos empurram a responsabilidade para o colo da União Europeia, onde a França, isolada, tenta ainda segurar as pontas de um protecionismo agrícola que parece ter os dias contados.
Mas o que está realmente em jogo nos corredores de Brasília e Lisboa? Não se trata apenas de baixar o preço do vinho português no Brasil ou da carne brasileira em Portugal. É uma reconfiguração geopolítica. O acordo prevê que 91% das tarifas desapareçam, criando um mercado de 720 milhões de consumidores. Para o cidadão comum, a promessa é de prateleiras mais diversas e preços competitivos; para as empresas, é o fim da burocracia kafkiana que trava as trocas transatlânticas.
A estratégia agora é de velocidade. A Comissão Europeia já fala abertamente em “aplicação provisória” para maio. Se a Câmara paraguaia confirmar o esperado “sim” na próxima semana, o último dominó sul-americano cai, deixando o caminho livre para uma nova era económica. Resta saber se os agricultores franceses conseguirão travar um comboio que já circula a alta velocidade e que tem em Portugal um dos seus maiores entusiastas. O relógio de Bruxelas começou a contar.