Frase do dia

  • “Foi o 1.º de Maio de 1974 que transformou o golpe militar numa revolução em marcha”, Manuel Carvalho da Silva
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Jorge Morais

Sempre que em Portugal morre alguém que o vulgo pôs no firmamento da fama, logo brota no chão rasteiro da...

Sempre que em Portugal morre alguém que o vulgo pôs no firmamento da fama, logo brota no chão rasteiro da vidinha uma multidão de viúvos, como cogumelos depois da chuvada de primavera.

Não que tivessem partilhado com a estrela que se apagou qualquer tipo de intimidade: a maior parte nem sequer conhecia pessoalmente o defunto, embora no velório já se pavoneie companheiro de infância. Não: o que lhes importa é aproveitar aqueles dias, aquela semana em que o ilustre desaparecido ainda anda nas bocas do mundo para se colarem à sua fama, ao seu sucesso em vida, como se a glória do ídolo se refletisse lunarmente nos pequenos calculistas que o bajulam na morte.

Os jornais enchem-se então de artigos assinados por aduladores de fancaria. Uns fazem-se muito amigos lá de casa. Outros, oficiais diletos do mesmo métier. Outros ainda, seguidores indefectíveis que acompanharam tu-cá-tu-lá o percurso celestial do falecido.

Viúvos destes há-os para todos os gostos. Há quem chore a morte do ídolo com esgares de coreano nas exéquias de Kim Il Sung, convulsivamente, numa dor pública que até arrepia. Há quem faça o número do inconsolável sem palavras para exprimir a sua dor. Há quem aproveite para derramar ditirambos na segunda pessoa do singular (“lembras-te daquele dia…?”), dirigindo-se ao morto como se ele estivesse ali mesmo ao lado a ouvir as éclogas daquele desconhecido subitamente transformado em querido amigo. O importante é que o seu nome apareça, grudado ao sublime nome do génio desaparecido – mostrando como a genialidade passa de um para o outro, por osmose, através de um artigo de jornal.

Com sorte, a mistificação resulta e o viúvo de última hora passa por íntimo, quase herdeiro, daquela estrela que brilha no firmamento da fama. Dará então entrevistas sobre um distinto morto que mal ou nada conheceu. Será visto e notado nos colóquios, nos dias de aniversário e nas homenagens oficiais. Sem saber ler nem escrever.

Para já, nesta semana fatal, os viúvos vão chegando à basílica, de caras pálidas e óculos de sol – como se tivessem estado a chorar a noite inteira. Semblantes fechados, numa dor infinda. A verdadeira viúva, que nunca os tinha visto mais magros, tem de aceitar, coitada, os cumprimentos doloridos dos desconhecidos na fila do beija-mão. E os mais descarados sentam-se ainda um pouco na coxia, secando com um lenço descartável a lágrima de crocodilo que teima em não surgir e carpindo o seu fundo desgosto para as máquinas fotográficas dos repórteres das revistas cor-de-rosa.