À medida que a escalada de tensão regional se agrava, com mísseis iranianos a atingir países vizinhos do Golfo, uma crise humanitária silenciosa desenrola-se nas ruas do Dubai. Sob o pânico de novos ataques, milhares de residentes estrangeiros estão a abandonar a cidade, mas muitos optam por deixar para trás aqueles que não têm voz: os seus animais de estimação.
Associações de resgate e clínicas veterinárias relatam um cenário desolador. Segundo a organização K9 Friends Dubai, que se dedica ao realojamento de canídeos nos Emirados Árabes Unidos, o número de animais abandonados é “esmagador”. Relatos de cães encontrados amarrados a postes de iluminação, sem comida ou água, multiplicam-se nas redes sociais, expondo o desespero — e a negligência — de quem foge à pressa.



A pressão sobre as infraestruturas de acolhimento atingiu o limite. Aditi Gouri, proprietária do centro de acolhimento The Barking Lot, confirmou ao Telegraph que os abrigos estão em “ponto de rutura”. “Os voluntários reportam centenas de animais abandonados a mais do que o habitual. Estamos a tentar ser flexíveis, mas os abrigos estão superlotados e muitos já não conseguem aceitar mais nenhum animal”, lamenta Gouri.
O aspeto mais controverso desta crise prende-se com a conduta de alguns proprietários junto dos veterinários locais. Profissionais do setor revelam um aumento chocante na procura por eutanásia de animais saudáveis. Segundo um voluntário do The Barking Lot, “alguns veterinários confirmaram que há donos a tentar abater os seus animais simplesmente porque não querem lidar com os custos de transporte ou com a burocracia do processo de realocação.”
Enquanto os voos de saída de Dubai continuam lotados, o rasto de abandono deixado por quem outrora ostentava uma vida de luxo levanta questões éticas profundas sobre a responsabilidade de quem detém animais de estimação em zonas de risco.