A polilaminina, substância que despertou esperança em todo o mundo para o tratamento de lesões medulares, enfrenta agora o rigoroso crivo da comunidade científica global. Após a ampla divulgação de casos de pacientes brasileiros que recuperaram movimentos, a Professora Tatiana Sampaio, líder da investigação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), confirmou que o artigo científico original – publicado inicialmente como preprint (versão sem revisão por pares) – foi rejeitado por prestigiadas revistas internacionais, como a Springer Nature e o Journal of Neurosurgery.

De acordo com a investigadora, a rejeição não se deve ao mérito da descoberta, mas, sim, a erros formais e de interpretação de dados no manuscrito. Entre os problemas identificados, destaca-se um erro num gráfico de um paciente: a imagem sugeria uma evolução clínica 400 dias após o procedimento, quando, na verdade, o paciente já havia falecido. Tatiana Sampaio esclareceu que se tratou de um “erro de digitação” e que os dados pertenciam a outro participante do estudo.
Especialistas que analisaram o documento também apontaram inconsistências em exames de eletromiografia, que não demonstravam alterações claras em casos descritos como de sucesso. A equipa da UFRJ justifica que as imagens apresentavam “dados brutos” e que serão substituídas por versões mais legíveis na nova submissão.
A ausência de publicação em revistas científicas de referência é o principal ponto de cautela para médicos e cientistas. O processo de “revisão por pares” (peer review) é fundamental para validar se os métodos utilizados são robustos e se as conclusões são sustentadas pelas evidências. No estudo piloto, que envolveu oito pacientes, os resultados foram considerados “históricos” pela equipa brasileira: 75% dos participantes com lesões completas recuperaram alguma função motora, contra uma taxa de recuperação espontânea que a literatura científica estima em cerca de 1%. Contudo, para a comunidade internacional, estes números precisam de ser comprovados em ensaios clínicos controlados.
Apesar das correções a serem feitas no artigo, o projeto segue em frente no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou o início da Fase 1 dos ensaios clínicos. Esta etapa, que deverá arrancar em breve no Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo, focará na segurança da substância em cinco voluntários com lesões agudas, ocorridas há menos de 72 horas.
A polilaminina é uma rede de proteínas criada em laboratório que atua na regeneração dos axónios, as estruturas dos neurónios que transmitem informações entre o cérebro e o corpo. O projeto conta com o investimento de cerca de 100 milhões de reais (aproximadamente 18 milhões de euros) do laboratório farmacêutico Cristália.
Enquanto a nova versão do estudo é preparada para uma nova tentativa de publicação, a recomendação dos especialistas é de cautela. Embora os avanços sejam promissores, a polilaminina ainda não é considerada um medicamento aprovado e o caminho até à comercialização poderá levar entre cinco a dez anos.