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Manuel dos Santos

Durante décadas, a União Europeia habituou-se a viver numa confortável ficção: a de que a História tinha abrandado e que...

Durante décadas, a União Europeia habituou-se a viver numa confortável ficção: a de que a História tinha abrandado e que o direito internacional, as instituições multilaterais e a interdependência económica bastariam para manter o mundo relativamente previsível. Esse mundo acabou. O problema é que a Europa ainda não decidiu se percebeu isso.

A guerra na Ucrânia e o incêndio permanente no Médio Oriente são apenas os sintomas mais visíveis de uma transformação mais profunda: a erosão da ordem internacional que emergiu após 1945 e foi reajustada depois da Guerra Fria. O sistema que se baseava em regras comuns está a ser substituído por algo bem mais antigo e menos elegante: equilíbrio de poder, zonas de influência e competição entre grandes potências.

A União Europeia, que sempre preferiu pensar-se como “potência normativa”, enfrenta agora uma realidade desconfortável: normas sem poder raramente sobrevivem ao primeiro choque com a força.

É neste contexto que se torna particularmente significativo o recente choque político entre António Costa e Ursula von der Leyen e respectivos proxys. O episódio não é apenas uma divergência de estilos ou de ambições institucionais. É, no fundo, um pequeno vislumbre de uma disputa maior: quem define o rumo estratégico da Europa quando o mundo deixa de ser confortável.

Costa representa uma tradição europeia mais clássica — prudente, institucional, cuidadosa com equilíbrios internos. Von der Leyen, pelo contrário, tem vindo a empurrar a Comissão para um papel cada vez mais político e estratégico, aproximando-a de algo que em Bruxelas sempre se evitou nomear: poder executivo europeu em matéria geopolítica.

Naturalmente, este tipo de ambição cria anticorpos. Alguns governos temem uma Comissão demasiado musculada. Outros receiam simplesmente perder influência. E, nos bastidores, há sempre quem observe estas tensões com discreta curiosidade. Certos líderes europeus preferem não entrar diretamente no confronto, mas dificilmente lamentariam ver Bruxelas um pouco menos dominante. Na política europeia, as alianças raramente são declaradas e as rivalidades quase nunca são acidentais.

Von der Leyen parece, ainda assim, ter chegado a uma conclusão clara: a Europa precisa de poder duro — militar, industrial e tecnológico. A sua visão para o futuro da União aponta para uma integração muito mais profunda em áreas que durante décadas foram tabu: indústria de defesa, autonomia estratégica e capacidade militar credível. Não por idealismo federalista (mas também) mas por necessidade.

O problema é que a União continua estruturalmente dividida. Entre Leste e Oeste. Entre atlantistas e autonomistas. Entre Estados que vivem com a ameaça russa à porta e outros que ainda acreditam que o poder militar é uma relíquia do século XX.

E vive sobretudo o drama dos egoísmos nacionais, protagonizados por líderes em apuro eleitoral (Sanchez e Orban são excelentes exemplos) que não se inibem de contribuir para o desconforto geral.

E as regras institucionais ainda não tem mecanismos eficazes para os travar, impondo-lhes, como prioridade, o interesse comum europeu.

Mais uma vez a ideia de uma defesa comum volta à agenda. Mas convém distinguir retórica de realidade. Uma defesa comum é coordenação estratégica. Um exército europeu é outra coisa: comando único, doutrina comum, financiamento comum e — sobretudo — vontade política comum para usar força. E é precisamente aí que a unidade europeia começa a vacilar e se torna mais evidente a necessidade de definir outras regras e outros equilíbrios.

É nesse vazio estratégico que surge a proposta mais provocadora de Emmanuel Macron: a possibilidade de estender a dissuasão nuclear francesa ao conjunto da Europa. Num mundo onde a Rússia voltou a brandir a ameaça nuclear e onde a garantia americana deixou de parecer absolutamente automática, a lógica francesa é clara: sem dissuasão credível, não há verdadeira soberania estratégica.

Será possível concretizá-la no quadro actual de competências que os Tratados procrastinam e no conjunto de valores definidos para uma sociedade aparentemente ultrapassada?

As vulnerabilidades da União são conhecidas, mas nunca enfrentadas de frente: fragmentação militar, dependência energética recorrente, atraso tecnológico face aos Estados Unidos e à China, e um processo de decisão que continua demasiado lento para um mundo que se move à velocidade das crises.

Ainda assim, a Europa insiste em ver-se como a guardiã de uma certa ideia de ordem internacional — baseada em regras, direito e cooperação. A pergunta incómoda é se esse mundo ainda existe.

Quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas fica paralisado pelo veto de potências rivais, o direito internacional entra numa zona cinzenta. A legalidade formal permanece, mas a capacidade de agir desaparece. A Europa enfrenta então um dilema clássico: respeitar estritamente um sistema bloqueado ou procurar caminhos que preservem o espírito da ordem internacional sem ficarem reféns da sua paralisia.

Não há resposta fácil. Mas há uma constatação inevitável: a Europa já não pode comportar-se como se estivesse protegida por um ambiente estratégico benigno.

A verdadeira questão não é se a União Europeia quer ser um ator geopolítico.

Num mundo que voltou a ser competitivo e perigoso, a Europa terá poder suficiente para defender os valores que diz representar ou limitar-se-á a escrever regras para um sistema que já ninguém segue?