A mais recente deslocação de José Luís Carneiro à Venezuela traz de volta lembranças antigas de relações das mais altas...
A mais recente deslocação de José Luís Carneiro à Venezuela traz de volta lembranças antigas de relações das mais altas instâncias do Partido Socialista com o regime venezuelano.
Durante o Governo de José Sócrates houve uma fase clara de aproximação política e económica entre Lisboa e Caracas. Em 2008, Hugo Chávez esteve em Lisboa e foram assinados vários acordos bilaterais. Tivemos um pouco de tudo, com o famoso Magalhães e o pernil de porco de Mário Lino como pano de fundo. Essa proximidade não foi apenas institucional, teve também uma dimensão política e simbólica, com Chávez a elogiar José Sócrates e com a cooperação económica luso-venezuelana a ser apresentada como particularmente intensa.
Mais tarde, em 2013, após a morte de Chávez, o próprio Nicolás Maduro agradeceu publicamente a presença de José Sócrates no funeral, referindo-se a ele como um “grande irmão” de Chávez. É aqui que José Luís Carneiro não quer ficar atrás! José Luís Carneiro tinha uma obrigação de prudência acrescida na Venezuela. Uma coisa é estar com a comunidade portuguesa, outra, muito diferente, é visitar e enaltecer instituições que estão longe de merecer reconhecimento democrático internacional. Por isto, esta visita é no mínimo classificada como imprudente, extemporânea e suscetível de ser instrumentalizada por um regime e por um parlamento cuja legitimidade é contestada.
Num momento em que a situação venezuelana continua politicamente frágil e sensível, não cabe a um líder partidário português fazer diplomacia paralela, unilateral, nem oferecer imagens de normalização política a estruturas contestadas. Quem quer defender os portugueses na Venezuela tem de o fazer com sentido de Estado, pelos canais próprios e sem ambiguidades morais nem políticas.
É esta a marca do PS na relação com o regime venezuelano: primeiro a proximidade política e económica, depois o embaraço, e no fim a desculpa do pragmatismo. O socialismo português acabou demasiado perto de um regime falhado, autoritário e incapaz até de garantir alimentos ao seu próprio povo, mas nunca foi capaz de ficar longe o suficiente para evitar que figuras suas aparecessem ligadas aos negócios desse colapso.