Quando a grande crise financeira de setembro de 2008 se abateu inclemente sobre as praças mundiais, João Rendeiro, então presidente do BPP, correu a pedir um aval ao Estado sobre um empréstimo de 750 milhões para apoiar a tesouraria e salvar o banco. Foi recusado.
Um dos administradores do BPP era João Cotrim de Figueiredo, o antigo líder da Iniciativa Liberal que ainda há poucos meses se lançou na ‘corrida’ para Belém. Reclamava então o empréstimo para salvar o ‘seu’ banco. Hoje, furioso liberal e sem banco para gerir, grita a plenos pulmões que o Estado “não deve salvar bancos” …

“O problema do BPP foi ter sido considerado por José Sócrates e pelo seu ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, como o banco dos ricos. Por isso, e porque tinha poucos clientes, não merecia o apoio do Estado. Pareceu-lhes que lhes ficava bem acabarem com o Banco Privado Português”, diz Jaime Antunes, antigo acionista do banco de Rendeiro, e hoje a voz dos muitos credores do banco.
Há 18 anos, em dezembro de 2008, João Rendeiro e demais gestores, foram afastados pelo Banco de Portugal. É nomeado então um novo conselho de administração, com 3 elementos, cada um representante de bancos concorrentes. Como que por milagre, o Estado dispõe-se, por fim, a avalizar um empréstimo de 450 milhões concedido por um sindicato bancário.
Uns são filhos, outros enteados…
O objetivo de reforçar a tesouraria para salvar o banco era aparente. O que realmente importava, como se viu, era pagar a clientes estrangeiros, para evitar que se falasse lá fora da falência de um banco português, e às caixas agrícolas, muito expostas a investimentos no BPP. Foi o que fez a nova administração: “Pagaram aos clientes estrangeiros, mas os de cá ficaram a arder”, queixam-se os ainda lesados.
Calados os estrangeiros e reconfortadas as caixas agrícolas, na latura muito expostas à ’débacle’ do BPP, mais nada sobrou dos 450 milhões. Em 21 de abril de 2010, aconteceu o inevitável: o Banco de Portugal, com o aval do ministro das Finanças, decidiu-se pura e simplesmente pela insolvência, pouco se importando por quem lá possuía investimentos e depósitos.
E como se isso não chegasse, o Estado, sempre ele, apresentou-se como credor privilegiado contra os interesses dos clientes. Nem um cêntimo perdeu. O empréstimo foi liquidado com dinheiro saído da massa insolvente e não houve necessidade de acionar a garantia.
O ‘banco dos ricos’
O BPP não era um banco de depósitos. Ainda assim, quando a crise estalou, o banco não teria mais do que três dezenas de depositantes, sobravam, isso sim, os investidores. Entre todos os bancos que faliram em Portugal, o BPP foi o único em que os depósitos não foram salvaguardados. O BPN foi nacionalizado, o BES deu origem ao Novo Banco e, no caso do Banif, a carteira de depósitos foi vendida ao Santander.

Uma parte dos depositantes do BPP perdeu muito dinheiro. Salvaram-se os depósitos até cem mil euros, valor máximo assegurado pelo Fundo de Garantia, e os que excediam os 100 mil euros e tinham mais do que um titular, uma vez que cada um dos titulares teve legalmente direito a uma compensação de 25 mil euros.
Os maiores acionistas do BPP eram João Rendeiro, fundador do banco, com uma participação de 12,5 por cento através da empresa offshore Joma Holding; Francisco Balsemão com 6 por cento; Stefano Saviotti, que detinha 5,8 por cento; a Sofip, da família Vaz Guedes, com 5,8 por cento; a família Serrenho, proprietária da CIN, 4,2 por cento; a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, com 2,2 por cento; e Joaquim Coimbra, que também tinha siso acionista do BPN, que detinha dois por cento do capital.