A Cáritas Diocesana de Leiria angariou 2,3 milhões de euros no fundo de emergência criado para a reconstrução das habitações destruídas pelas tempestades do início do ano. Contudo, três meses depois, apenas cerca de 142 mil euros foram alocados, o que representa um apoio a 16 famílias.
A informação foi avançada ao Expresso pelo diretor de serviços da Cáritas de Leiria, Nelson Costa, que explicou que a demora se deve à gestão dos apoios públicos. “Gostaríamos de ser mais céleres”, afirmou.
O apoio da Cáritas consiste num fundo complementar aos apoios públicos e às indemnizações das seguradoras. “Não substituímos o papel do Estado, a quem cabe, efetivamente, dar uma resposta firme e rápida às famílias. Por isso, não podemos intervir enquanto não houver resposta aos pedidos apresentados. Estamos dependentes dessas entidades”, esclareceu Nelson Costa. O objetivo do procedimento é que a distribuição dos fundos seja justa e evite duplicações: “Estamos a ser exigentes para garantir que cada cêntimo é aplicado com rigor.”
Lentidão da resposta pública agrava crise
Na base do problema está a morosidade da resposta estatal que, segundo o diretor, está a “atrasar os processos e a invalidar a intervenção no terreno”.
“É inadmissível que, passados três meses desde a tempestade, ainda haja apoios do Estado por desbloquear. Há casas onde continua a chover lá dentro e pessoas ainda sem telhado. A escassez de mão de obra e o aumento dos custos, influenciados também pela instabilidade decorrente da guerra no Irão, estão a dificultar a reconstrução”, criticou Nelson Costa. Muitas famílias continuam sem habitação própria, a viver com familiares, em soluções provisórias ou em casas pré-fabricadas.
O impacto psicológico é outra das grandes preocupações: “As pessoas continuam sem ver uma luz ao fundo do túnel. No próximo inverno, bastará ouvir o vento para reativar a ansiedade de quem passou por isto”.
Balanço dos apoios: 16 famílias ajudadas e 39 processos em curso
Até ao momento, as 16 famílias apoiadas representam 27 adultos e 11 crianças residentes nos concelhos de Ourém, Leiria e Marinha Grande. O apoio foi alocado na reconstrução de habitações — nomeadamente telhados — e no recheio das casas, aquisição de eletrodomésticos, reparação de viaturas e pagamento de despesas básicas como rendas, água e luz.
Há ainda 39 processos sob análise ou a aguardar documentação, enquanto outros 16 pedidos foram recusados. As decisões negativas devem-se essencialmente a pedidos referentes a habitação não permanente ou situações de heranças não resolvidas. Em outros casos, as famílias apresentavam rendimentos considerados “relevantes”, o que contraria o critério do fundo, destinado a quem se encontre em situação de vulnerabilidade económica. No total, foram abertos 71 processos.
Fiscalização independente e donativos internacionais
Após a submissão dos pedidos pelas famílias, uma comissão independente desloca-se ao terreno para validar se os orçamentos são adequados. Uma vez deferido o pedido, o apoio não é entregue diretamente aos beneficiários, mas sim a fornecedores, empreiteiros ou senhorios, mediante a apresentação de faturas e recibos.
A Cáritas continua a receber donativos via MB Way, transferência bancária e formulário online. Os fundos angariados resultam de contributos de particulares e empresas, incluindo doações internacionais de relevo. “Recebemos donativos dos Estados Unidos, do Brasil e do Canadá. Uma empresa norte-americana contribuiu com cerca de 50 mil dólares e um instituto brasileiro com 50 mil euros”, detalhou o responsável, destacando ainda a forte mobilização da comunidade portuguesa no Canadá.