A RTP voltou a entrar no debate público, desta vez não por um programa ou audiência recorde, mas por uma viagem… institucionalmente criativa. Na semana em que a televisão pública anunciou um prejuízo de 4 milhões de euros em 2025 — o primeiro em 15 anos —, ficou a saber-se que a estação estatal disponibilizou um carro para transportar a vereadora socialista da Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão, até ao Porto, onde participaria num programa destinado a debater a autodeterminação de género e a controvérsia concreta sobre as terapias de conversão emitido a partir dos estúdios do Monte da Virgem.

O detalhe que eleva o episódio de logístico a simbólico é outro: nesse mesmo dia decorria a reunião do executivo municipal lisboeta. Solução encontrada? A vereadora participou na reunião… a partir do banco de um carro da RTP, em trânsito para Norte. Uma espécie de governação em movimento, com Wi-Fi e motorista, financiada por quem paga o tal ‘serviço público’ na fatura da eletricidade — e, já agora, da televisão pública.
Num contexto em que se discutem cortes, eficiência e o papel do serviço público, a imagem não deixa de ser eloquente: uma empresa com contas no vermelho a assegurar boleias institucionais para garantir a presenças televisivas. E tudo em nome da informação, dir-se-á. Ou talvez da conveniência.
O caso levanta inevitáveis questões sobre critérios, prioridades e fronteiras entre serviço público e facilidades públicas. Porque, no fim do dia, a dúvida permanece: se isto é serviço público, então o conceito pode estar a viajar — confortavelmente — sem destino muito claro.