O fenómeno de pessoas que se identificam como animais está a ganhar visibilidade nas redes sociais. São chamados de teriantropos ou ‘therians’, designação deste grupo em inglês. É o caso Amity que se define como uma gata. Esta jovem de Lisboa não está sozinha.
“Descobri que era um ‘therian’ porque em criança adorava gatos e agia como um”, conta ao 24Horas Amity, que prefere não revelar o nome ou a idade. Tinha 11 anos quando decidiu pesquisar na internet sobre estes indivíduos que se identificam como animais — usam máscaras e caudas de uma determinada espécie, emitem sons e tentam imitar o seu andar.
Amity diz que os pais não julgam a sua escolha: “Os meus pais não se importam e dizem que posso fazer o que quiser, acreditar no que quiser.” Já os amigos desconhecem esta realidade. “Acham os ‘therians’ cringes [constrangedores] e nojentos”, justifica.
À partida, os teriantropos não se alimentam com comida própria dos animais com que se identificam. “Existem ‘therians’ falsos que são ‘haters’: fingem ser ‘therians’ e dizem que para o ser é preciso comer ração e agir como um animal”, assegura Amity.
Afinal, qual é a origem desta identidade? A teriantropia nasceu como um conceito para descrever as figuras míticas que podiam transformar-se em animais. Depois, o termo passou a descrever as pessoas que acreditam ter uma ligação espiritual e psicológica com os animais selvagens, vivos ou extintos, reais ou fictícios.
Em Portugal, várias pessoas partilham vídeos e fotos nas redes sociais, assumindo-se como teriantropos. No entanto, é algo que só existe na privacidade e sob pseudónimo. O perfil @spike_the_fox64 tem cerca de três mil seguidores no TikTok. Afirma ser uma raposa e vive em Aveiro. Nos comentários deste perfil, outros portugueses asseguram partilhar a identidade ‘therian’.
O 24Horas contactou cerca de 20 pessoas no TikTok e no Reddit (membros do canal r/therian) que se consideram teriantropos. Apenas Amity aceitou partilhar a sua experiência. No seu perfil do TikTok não mostra a cara, nem publica conteúdos sobre este tema.
Alvos de bullying
A identidade teriantropa pode ser confundida com um estado psíquico raro chamado zoantropia clínica, em que as pessoas acreditam e comportam-se como um animal, segundo relata a revista científica belga “Tijdschrift voor Psychiatrie”. A publicação menciona o caso de uma mulher belga de 54 anos que, em 2020, deu entrada num hospital ao comportar-se como uma galinha.
O debate sobre as características da comunidade ‘therian’ parece não ter fim. No grupo ‘r/therian’ do Reddit, há quem refira que “a teriantropia é uma identidade de espécie e não de género”.
Segundo as histórias partilhadas por portugueses nas redes sociais, é durante a infância que se manifesta esta identidade, levando a que estas crianças sejam vítimas de bullying.
“O bullying tem na base tudo aquilo que seja um bocadinho de diferente, o mais típico é que ocorra por características físicas ou orientação sexual, mas, infelizmente, as crianças que se assumem como animais podem ser um motivo mais evidente para haver esse tipo de comportamento”, contextualiza o psicólogo Luís Fernandes, autor do livro “Plano Bullying – Como apagar o bullying da escola”. O psicólogo refere ainda que a falta de comunicação e de partilha emocional entre as crianças ‘therians’ e os familiares, professores e colegas pode contribuir para o preconceito em relação a esta identidade.
Comunidade ‘furry’ de Portugal com 400 membros
Há um ano, o caso de um aluno do Instituto Superior de Engenharia do Porto que frequentava as aulas com uma máscara de cão teve repercussão nacional. No entanto, este não será um exemplo de ‘therian’, mas sim de ‘furry’, uma vez que envergava uma máscara no espaço público. Trata-se de comunidades distintas.
Em 2008, um grupo de jovens portugueses com interesse em personagens antropomórficas juntou-se para criar a primeira comunidade de ‘furries’ em Portugal, a Eufurria. Atualmente, este grupo tem cerca de 400 membros, assegura ao 24Horas Emma (nome com que apresenta nas redes sociais), uma das administradoras da Eufurria. Quem não conhece a comunidade ‘furry’ costuma confundi-la com a comunidade ‘therian’. “O principal foco do fandom [subcultura] furry é a criatividade, a partilha de interesses e a paixão por personagens antropomórficos, que surgem em diversas formas de arte, como ilustrações, fursuits, histórias ou eventos sociais”, realça Emma. Em eventos e convenções geek é frequente encontrar pessoas que encarnam personagens como o Rato Mickey, Rei Leão ou Panda Kung Fu.
@24horaspt Pessoas que se identificam como animais? Sim, são os chamados teriantropos ou ‘therians’. Usam máscaras, caudas e imitam o comportamento de outras espécies, como gatos ou raposas. Garantem de que não se trata de um fetiche, mas sim de uma identidade de espécie. O 24Horas falou com uma jovem portuguesa que se assume como uma gata. Não está sozinha. Várias pessoas partilham vídeos e fotos nas redes sociais, assumindo-se como teriantropos. #24Horas #Therians
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