Maurício Ribeiro (na foto, o primeiro à esquerda), a par de Sérgio Figueiredo, um dos principais responsáveis do projeto televisivo ‘Conta Lá’, é um artista: fotógrafo, realizador, produtor, empresário, domina o mundo da imagem, do cinema, das séries de TV, do espetáculo. Também é um inspirador. A sua vida real, um enredo de mentiras, burlas e golpes, ultrapassa a ficção. Dava um filme – uma longa-metragem entre a comédia e a tragédia que podia muito bem ter o título ‘Agarrem-me se puderem” ou então ‘Anda Boby, que já enganámos mais um’.
Homem dos sete ofícios, não tem feito outra coisa senão exibir o seu talento na arte da falcatrua. Uma das suas últimas proezas foi ter sido publicamente acusado pelo já desaparecido António Pedro Vasconcelos de violar a sua caixa de mails.
Maurício Ribeiro tem um largo currículo que muitos não hesitam em classificar como ‘cadastro’. Abrir empresas de produção de media e atirá-las para o buraco da falência tem sido uma das suas muitas especialidades.
A primeira delas, a Just Cine, constituída no verão de 2016, produziu para a RTP – melhor, devia ter produzido – a segunda temporada da série Ministério do Tempo, adaptada de um êxito da televisão espanhola e anunciada na grelha do canal público, em 2017, como a derradeira aposta para o horário nobre.
A primeira temporada foi produzida pela Inziomédia. A RTP decidiu entregar a produção da segunda temporada à Just Cine, de Maurício Ribeiro e do primo Luís Valente. Correu tudo mal.
O elenco deixou de receber os salários. Não fosse a pública denúncia do escândalo por parte dos atores – António Capelo, Luís Vicente, João Craveiro, Andreia Dinis, Mariana Monteiro, João Vicente, Samanta Castilho, Carla Andrino e Ângelo Rodrigues – e muito provavelmente ainda estavam à espera. As gravações só recomeçaram quando a Just Cine lhes pagou o devido. O administrador da produtora, Luís Valente, dirá que os 200 mil euros para os ordenados tinham sido desviados pelo primo Maurício.

Ao longo dos anos, Maurício Ribeiro, que também já usou o pseudónimo de Rosiel d’Assumpção, somou golpes, calotes e burlas. Hoje é um dos ‘homens-forte’ do projeto televisivo ‘Conta Lá’
O contrato com a estação pública previa a produção de 18 episódios por 1,35 milhões de euros – à razão de 75 mil euros cada um. Maurício apenas conseguiu entregar cinco episódios. A RTP acabou por cancelar o negócio quando a produtora procedeu a uma operação de ‘factoring’ – mecanismo financeiro que permite aos bancos anteciparem uma receita futura garantida.
Manha, muita manha
Maurício apresentou ao BCP e ao EuroBic cópias dos contratos da produção da série para a RTP – e levantou, respetivamente, 738 mil euros e 922 mil e 500 euros. Mas os contratos eram tão falsos como judas: exibiam as assinaturas falsificadas do diretor de programas, Nuno Artur Silva, e da administradora financeira, Cristina Vaz Tomé. “Ambos apresentámos queixa no Ministério Público”, recorda Nuno Artur Silva ao 24Horas. O caso ainda está em inquérito.
O cancelamento de todos os contratos com a RTP obrigou a Just Cine a fechar portas. Mas Maurício Ribeiro, um fura vidas, não ficou parado. Quando a firma já agonizava em dificuldades, fundou a Just Up. Aplicou-lhe a mesma receita de gestão: manha, muita manha.
Ao fim de escassos dois anos de atividade, o Tribunal de Comércio de Santarém, em setembro de 2018, declarou a firma insolvente. Os credores mexeram-se na esperança de reaverem alguma coisa. Em vão. O Tribunal encerrou o processo, em março de 2023, por “insuficiência da massa insolvente”. Dali não levaram nada.
Ainda a Just Up estava moribunda, mas sem salvação, já o irrequieto Maurício Ribeiro, ativo empreendedor, criava a sua terceira produtora de audiovisuais – a Maumau Mia, constituída em fevereiro de 2018. O nome assenta-lhe como luva de pelica em mão de pianista. Já um grupo de credores está a miar que Maurício não lhes paga.

A Maumau Mia arrecadou nos últimos sete anos, só em contratos públicos, cerca de um milhão e 100 mil euros – a maior parte por adjudicação direta, segundo o portal Base Gov. Na larga maioria dos casos, os contratantes são câmaras municipais que pagam por curtos documentários para exibição na rubrica Experiências.pt do canal Casa e Cozinha. Em setembro e outubro deste ano, Maurício Ribeiro ganhou dois concursos da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária: um no valor de 62 mil euros, outro de 34 mil e 300 euros – num total de 96 mil e 300 euros.
A produtora já tem credores à perna. É alvo de pelo menos 12 processos de execução de dívidas que, segundo as nossas fontes, totalizam quase 600 mil euros. À cabeça dos credores, surge o Millennium bcp. Reclama o pagamento de 322 mil euros. Não tarda muito, a Maumau Mia, com quatro empregados, vai pelo mesmo caminho das antecessoras – basta um credor pedir a insolvência na tentativa de vir a receber alguma coisa da massa insolvente…
Além da produtora de audiovisuais, Maurício Ribeiro está ligado a mais três sociedades: a Baú D’iniciativas, criada em agosto do ano passado, a Bússola Exclusiva, constituída há quatro anos, e a Formiga Cosmopolita, há menos de um ano.
A primeira sociedade dedica-se à gestão de investimentos e participações. A segunda presta serviços de gestão. A última dedica-se à construção civil – mas é coisa fina: está vocacionada para os serviços especializados de construção: da colocação de azulejos e ladrilhos aos acabamentos. Maurício Ribeiro não põe as mãos em argamassa…
De golpe em golpe
Já comeu muita côdea, quando a tinha. Ele e os três irmãos cresceram sozinhos, na Amadora, abandonados pela mãe – pelo menos é o que se conta. O pai estava ausente algures em África. As quatro crianças viviam de expedientes e da compaixão dos vizinhos. O advogado Luís Caçador conheceu-o, pela mão de um amigo, teria ele meia dúzia anos. Ficou encantado com a esperteza da criança. Mal sabia que o rapaz, esperto e descarado, havia de o aldrabar.
Luís Caçador ficou uma eternidade sem saber de Maurício. Até que um dia o encontrou, em 2015, numa esplanada à beira do Tejo, em Belém. “O Maurício estava na maior”, recorda o advogado. O rapaz sem eira nem beira era, dizia ele, fotógrafo da National Geographic, tinha trabalhado nas Nações Unidas e, durante alguns anos, fotógrafo do secretário-geral Kofi Annan. Maurício não se ficou por aqui. O seu currículo estendia-se, obviamente, a Portugal. Fora fotógrafo do primeiro-ministro Durão Barroso e do ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins Cruz. Também era íntimo de Passos Coelho. Luís Caçador ficou contente. O rapaz que ele conheceu era um bem-sucedido cidadão do mundo. Nem por um minuto imaginou que tudo não passava de um delírio.
É certo que não mentiu em tudo. Foi fotógrafo de Durão Barroso, por pouco tempo, e depois de ser enxotado de S. Bento, encontrou refúgio no gabinete do ministro Martins da Cruz, por onde ficou também uns breves tempos. Quando ao resto, mentia com todos os dentes que tinha. Nem sequer era próximo de Passos Coelho – intimidade que exibia para ‘abrir portas’ quando ‘o Pedro’, como se referia a ele, quando este era primeiro-ministro – nem tão-pouco era primo da sua mulher Laura.
Ganhava, isso sim, a vida a fotografar casamentos – e já então tinha um rasto de burlas. Bastava uma breve pesquisa no Facebook para encontrar queixas e mais queixas sobre a habilidade de Maurício para receber o dinheiro e não aparecer no dia do casamento. Deixou muita noiva abandonada no altar à espera do fotógrafo.

A firma de fotografia – designada Formato 6×6 – já então estava insolvente, atolada em dívidas, e Maurício, também ele falido, propôs a Luís Caçador investir na criação de uma produtora de cinema. O advogado, que já tinha planos para abandonar a advocacia, aceitou sem pestanejar.
Nasce a Oficina de Filmes. O advogado entrou com a parte de leão – 24 mil euros correspondentes a 80 por cento do capital social. Nem sabia no que se metia. “Fomos para a Guiné, uma equipa inteira, fazer um documentário. Maurício garantia que tinha tudo tratado e que a RTP iria comprar o trabalho. Treta. Com o Maurício era tudo em grande”, diz.
A estação pública recusou o documentário. Ainda comprou um outro sobre o 25 de Novembro, mas o da Guiné, que tinha custado muito dinheiro a produzir, nunca quis. Maurício, entretanto, fundou a Just Cine – e, segundo Luís Caçador, vendeu à RTP o documentário sobre a Guiné, que tinha sido produzido pela Oficina de Filmes, e ficou com o dinheiro.
Maurício nunca mais parou. À Just Cine sucedeu a Just Up e a esta a Maumau Mia. A cada falência nasce outra novinha em folha. Resta saber qual será a próxima. Maurício Ribeiro, agora administrador do ‘Conta Lá’, sabe com certeza!