A Argentina entrou numa semana de alta voltagem política e social. Os protestos que já vinham a crescer ganharam novo fôlego na quarta-feira, com confrontos nas ruas de Buenos Aires, e atravessaram a madrugada de quinta-feira, quando o Senado aprovou a reforma laboral proposta pelo governo de Javier Milei. O país acordou dividido — entre a promessa de mudança estrutural e a sensação de rutura social.
Durante horas, milhares de manifestantes concentraram-se nas imediações do Congresso. Sindicatos, movimentos sociais e trabalhadores de diferentes sectores denunciaram perda de direitos históricos e convocaram paralisações. Ao cair da noite, o cenário agravou-se: houve confrontos com as forças de segurança, utilização de gás lacrimogéneo e balas de borracha, detenções e registo de feridos. As imagens circularam rapidamente nas redes sociais, alimentando um ambiente de tensão que já não se limita ao debate parlamentar.
Apesar da pressão nas ruas, o Senado aprovou o texto central da reforma laboral após mais de 14 horas de discussão. A proposta altera regras de contratação, reduz custos associados a despedimentos e redefine aspetos da negociação coletiva. O governo sustenta que se trata de uma modernização indispensável para dinamizar a economia e atrair investimento num país marcado por inflação crónica e baixo crescimento. A oposição sindical e partidos críticos argumentam que o pacote fragiliza proteções consolidadas e desloca o equilíbrio das relações laborais em favor do empregador.
No mesmo compasso de endurecimento, a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou a redução da idade de responsabilidade penal de 16 para 14 anos. A medida, defendida como resposta à criminalidade juvenil, abriu nova frente de controvérsia. Organizações de direitos humanos alertam para o risco de encarceramento precoce e para a ausência de políticas estruturais de prevenção.
O mal-estar, porém, não se limita aos manifestantes. Setores estratégicos registaram greves e paralisações, incluindo transportes e serviços públicos. Em algumas províncias, houve movimentos de contestação dentro das próprias forças policiais, com reivindicações salariais e críticas às condições de trabalho — um sinal de que a tensão atinge também estruturas do Estado.