O BTG Pactual está em negociações avançadas para adquirir o Banco Digimais, controlado por Edir Macedo, num negócio que poderá reforçar a posição do banco de investimento no sistema financeiro brasileiro e acelerar o processo de consolidação do sector.
A operação surge num contexto particularmente sensível para o Digimais. A instituição tem enfrentado dificuldades financeiras nos últimos anos, com o aumento dos níveis de incumprimento e uma forte pressão sobre os resultados. Apesar de tentativas anteriores de venda e de processos de reestruturação interna, o banco continua a atravessar uma fase considerada crítica pelo mercado.
O Digimais tem uma presença relevante em áreas como o crédito com desconto em folha (consignado) e o financiamento automóvel — segmentos que, embora lucrativos, estão mais expostos ao risco de incumprimento em cenários de instabilidade económica. Nos bastidores, a necessidade de reforço de capital e de um reposicionamento estratégico tornou-se evidente, abrindo espaço para a entrada de um novo accionista com maior capacidade financeira.
É neste cenário que surge o interesse do BTG Pactual, que tem vindo a expandir a sua actuação além do investimento tradicional, apostando cada vez mais na banca de retalho e em soluções digitais. A eventual aquisição do Digimais permitiria ao banco liderado por André Esteves aumentar a sua base de clientes e diversificar operações, ainda que implique desafios significativos na integração de activos e na recuperação da confiança do mercado.
No centro desta operação está Edir Macedo, uma das figuras mais influentes do universo religioso e empresarial brasileiro. Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Macedo construiu um império que extravasa a religião, com presença nos sectores da comunicação social, financeiro e imobiliário. É também o proprietário do Grupo Record, um dos maiores grupos de media do Brasil.
A ligação de Edir Macedo a Portugal é antiga e consolidada. A Igreja Universal do Reino de Deus tem uma forte presença no país, com templos em várias cidades, incluindo Lisboa e Porto, e uma base significativa de fiéis. Em território português, o grupo também ganhou visibilidade mediática através da Redecord e da sua relação histórica com o panorama televisivo (embora a TVI tenha pertencido à Media Capital, que nunca foi formalmente controlada pela Record, mas sim pela espanhola Prisa e, mais tarde, por investidores portugueses como a Plural e Mário Ferreira).
Além disso, Macedo tem investido no mercado português como porta de entrada para a Europa, aproveitando os laços culturais e linguísticos. A presença da sua estrutura empresarial em Portugal tem sido, no entanto, acompanhada de polémicas e de um forte escrutínio público ao longo dos anos.
A eventual venda do Banco Digimais representa mais um capítulo na reconfiguração dos activos ligados ao empresário, num momento em que o mercado financeiro brasileiro se torna cada vez mais competitivo e exigente em termos de capital e governação (governance).
Caso o negócio com o BTG avance, o banco de investimento poderá assumir o controlo de uma instituição fragilizada, mas com potencial de recuperação, consolidando a sua estratégia de crescimento e reforçando o seu peso no sistema financeiro da América Latina.