No dia 10 de junho, na Amareleja, Alentejo, uma família cigana desentendeu-se. Sancho Cardas, de 67 anos, matou o filho, António, de 40, por este discordar do casamento de uma menina, da família, de apenas 14 anos.
A organização não-governamental ‘Roma Influencers Network’ acaba de publicar um estudo sobre o casamento e maternidade precoces em comunidades ciganas de quatro países: Portugal, Irlanda, Grécia e Roménia.
Foram ouvidas 130 mulheres, neste projeto apoiado pelo programa ‘Eramus +’. As conclusões do estudo revelam as tradições ciganas, mas também a vontade de mudar.
Em Portugal, entre 2012 e 2022, casaram-se 1051 raparigas e 303 rapazes entre os 16 e os 17 anos. Uma realidade que, aos dias de hoje, já não seria possível. A lei 39/2025 de 1 de abril proíbe o casamento de menores, incluindo o casamento infantil, precoce ou forçado. Nestes casos poderão ser acionadas as autoridades de promoção dos direitos e proteção da criança e do jovem em perigo. A nova lei acabou por também alterar o Código Civil e a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo.
No entanto, entre a comunidade cigana, continua a contornar-se a lei e há uma realidade paralela à dos números oficiais: os jovens não casam no registo civil, até porque não o podem fazer antes da maioridade, mas juntam-se, em uniões de facto informais.
Nas conversas tidas com os investigadores deste estudo, as ciganas revelam, na maior parte dos casos, terem tido o desejo de casar-se cedo. Logo a seguir, cumprindo a tradição, vem a maternidade.
“Nas comunidades ciganas, a maternidade precoce é considerada normal, por isso tem um aspeto cultural subjacente”, revelam os autores do relatório comparativo entre os quatro países. “Em certas comunidades, a sexualidade está associada ao casamento e à procriação.”
Há quem se arrependa de ter seguido a tradição. 42% das inquiridas portuguesas revelou ter casado antes dos 18 anos e dessas, 26,3% das que engravidaram antes da maioridade, referiram que gostariam de ter estudado mais ou até entrado no ensino superior. Ao mesmo tempo, 63,2% confessaram que preferiam ter tido mais tempo para brincar.