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Existem, em Portugal, 930 mil animais sem lar. Destes, 830.541 são gatos e 101.015 cães. Os dados mais recentes são do Censo Nacional de Animais Errantes 2023, organizado pelo Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF). Cabe aos municípios, através dos centros de recolha oficial (CRO), fazer a captura e proteger os animais errantes. Muitos nunca tiveram detentor; outros foram abandonados à sua sorte.

“Para nós é um desafio responder se existe mais ou menos abandono de animais”, começa por dizer Sofia Baptista, chefe de divisão da Casa dos Animais de Lisboa (CAL), o CRO da autarquia lisboeta.

“Infelizmente, ainda existem pessoas a abandonar. Mas sinto que estamos a melhorar naquilo que se considera ser a melhor forma de tratar os animais. Está a haver uma evolução nesse aspeto e já há o conceito de o animal ser parte da família”, advoga a veterinária.

Muitas vezes há explicações para o abandono. E a crise habitacional parece ser uma delas. “Desde a pandemia que isso tem vindo a agudizar-se. Temos um aumento de pedidos de recolha por parte de famílias que por questões relacionadas com a habitação se vêm nessa situação”, esclarece Marta Videira, veterinária e diretora técnica da CAL. “As pessoas estão a perder a sua casa, a serem despejadas, a irem para casas partilhadas e deixam de poder ter os animais.”

Há ainda casos de discriminação no acesso à habitação. “Estamos a receber muitos pedidos de famílias com animais, que, ao tentarem mudar de casa, na nova habitação não aceitam animais”, continua Marta Videira. “Está a haver uma pressão muito grande, do lado da habitação, até para lá da própria legislação e de questões éticas”.

E dá um exemplo: “Temos pessoas que se mostram interessadas em determinada habitação e, no final, são sempre escolhidas – sobretudo para arrendamento – as que não têm animais. Isto é muito feio, mas está a acontecer”.

É nas zonas mais desfavorecidas de Lisboa que a CAL observa maior quantidade de animais errantes. “Não é no centro da cidade, nas áreas mais nobres. Não quer dizer que não possamos encontrar um animal amarrado a um poste nas Avenidas Novas ou na Avenida de Roma, mas é muito pontual.”

Em situações de abandono, os munícipes podem sinalizar a situação à CAL, sendo feita posteriormente a recolha do cão ou gato.

As duas veterinárias da CAL apelam a que não sejam abandonados animais por motivos sócio-económicos. “Temos vários protocolos ou programas-contrato que direcionamos para as pessoas que não querem abandonar os seus animais, mas não têm todas as condições”, assinala Sofia Baptista.

O cheque-veterinário e o apoio social e com alimentação são duas das opções disponíveis para os tutores em apuros. “Em função do caso canalizamos para o nosso protocolo através da Ordem dos Veterinários, para fazermos o cheque-veterinário e esses tutores terem acesso a cuidados médico-veterinários. Temos também um contrato-programa com a Associação Animalife que, entre outras coisas, ajuda com a alimentação. Tudo isto para que as pessoas consigam manter os seus animais”, remata.

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