O antigo diretor de recursos humanos do Ministério da Cultura Francês, Christian Nègre, está a ser acusado de drogar mais de 200 mulheres em entrevistas de emprego, num dos casos mais sórdidos que a justiça de França tem lidado.
A investigação teve início em 2019, quando o ex-funcionário público foi acusado de colocar diuréticos ilegais (substâncias que estimulam os rins a produzir urina) nas bebidas que servia a candidatas ao recrutamento para postos de trabalho variados. De acordo com as vítimas, no princípio das reuniões, Nègre oferecia-lhes chás ou cafés que, sem elas saberem estavam adulterados pelas referidas substâncias, convidando-as de seguida a realizar a conversa no exterior. Aceite o convite, o suspeito prolongava as conversas tempo suficiente para que as entrevistadas ficassem desesperadas para as suas necessidades mais básicas. Algumas delas assumem ter urinado em público ou nas próprias roupas.
Sylvie Delezenne, de 45 anos, uma das vítimas revelou que foi contactada em 2015, via Linkedin, com uma proposta de emprego. Chegada à entrevista, a sujeita tirou um café. No entanto, antes de conseguir ingerir a bebida, Nègre desviou o café da máquina, tendo-se dirigido a uma colega para a cumprimentar. Quando regressou com o café, o responsável de recursos humanos sugeriu que a conversa decorresse na rua. Delezenne conta que o diálogo, que ocorreu no Jardim das Tulherias, nas imediações do Louvre, demorou longas horas, admitindo “que sentia cada vez mais necessidade de urinar”. Ao pedir uma pausa técnica, a mulher foi ignorada. Quando não conseguiu aguentar mais agachou-se no meio das ruas parisienses e começou a urinar. Foi nesse momento que o alegado criminoso se terá oferecido para a cobrir com um casaco.
Passados quatro anos do sucedido, Sylvie foi abordada pela polícia e descobriu que o sujeito que a entrevistara tinha colocado o seu nome juntamente com fotografias das suas pernas na base de dados designada por ‘Experiências’. Alegadamente, estes ficheiros continham o nome de diversas vítimas, bem como as horas a que tinham sido drogadas e as suas reações.
Louise Beriot, advogada das lesadas, afirma que os comportamentos de Nègre se devem a uma vontade em obter “controlo e domínio sobre o corpo de mulheres sob o pretexto de uma fantasia sexual”.
Contactada pela imprensa, a advogada do suspeito, Vanessa Stein, recusou-se a prestar declarações.
Seis anos após o começo das investigações, o caso ainda decorre. O sindicato da cultura da Confederação Geral do Trabalho aponta o dedo ao Ministério da Cultura, atualmente liderado por Rachida Dati, exigindo que “reconheça a sua responsabilidade enquanto empregador”.