Durante uma operação da Polícia Federal do Brasil, realizada esta semana, um dos nomes mais relevantes do financiamento político voltou ao centro da atenção pública.
Trata-se de Fabiano Zettel, pastor evangélico, investidor e empresário, conhecido por ter sido o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas nas eleições de 2022. O seu nome ganhou maior projeção após se tornar alvo de uma nova fase de investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro Daniel Vorcaro, Zettel foi alvo de buscas e chegou a ser detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, o mesmo local onde Daniel Vorcaro havia sido detido em novembro passado, quando tentava embarcar para Malta. No caso de Zettel, a Polícia Federal identificou que o empresário tinha passagem marcada para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com embarque previsto para a madrugada desta última quarta-feira.
Ao autorizar a apreensão de objectos pessoais e a detenção temporária do empresário, o ministro António Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, destacou que o momento do embarque representava uma oportunidade relevante para o avanço das investigações. Segundo a Polícia Federal, a medida permitiria a recolha de elementos que poderiam reforçar indícios já existentes e contribuir para o apuramento de outros eventuais delitos.
De acordo com a Polícia Federal, há suspeitas de que a actuação do investigado envolva crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, embora o pedido judicial não detalhe, nesta fase, quais são os ilícitos. A detenção de Zettel estendeu-se até ao início da manhã, sob o argumento de que a sua liberdade poderia comprometer a recolha de provas, tendo em conta os seus vínculos familiares com outros investigados. Durante a operação, o telemóvel do empresário foi apreendido.
O Supremo Tribunal Federal determinou ainda a apreensão do passaporte de Zettel e proibiu a sua saída do país até à conclusão das investigações. Além dele, a Polícia Federal realizou buscas em moradas ligadas a Daniel Vorcaro e a outros membros da família, incluindo o pai e a irmã.

No campo empresarial, Fabiano Zettel é fundador da Moriah Asset, um fundo de private equity, modalidade de investimento focada na aquisição de participações em empresas que não estão cotadas em bolsa. A Moriah actua sobretudo em negócios ligados aos sectores de produtos saudáveis, alimentação e fitness, sendo sócia de marcas conhecidas como Oakberry, Les Cinq, Frutaria São Paulo e Empório Frutaria.
Advogado de formação e empresário mineiro, Zettel é um nome conhecido não apenas no meio empresarial, mas também nos círculos políticos e religiosos do Brasil. Ele tem actuado na Igreja Lagoinha Belvedere, situada num dos bairros mais valorizados da região de Belo Horizonte. A Igreja Lagoinha surgiu na década de 1950, na periferia da capital mineira, e passou a ser liderada pela família Valadão a partir dos anos 1970.

Atualmente, o pastor presidente da Lagoinha é André Valadão, um dos líderes evangélicos mais vocalmente alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Para além da ligação religiosa com Zettel, Valadão mantém relações antigas com a família Vorcaro, incluindo episódios que já vieram a público envolvendo apoio financeiro em contextos pessoais.
Antes da sua actuação na Lagoinha, Fabiano Zettel também esteve ligado à Igreja Bola de Neve, em Belo Horizonte, pelo menos até 2024. Fundada em meados da década de 1990, a Bola de Neve ganhou notoriedade por adoptar uma linguagem menos tradicional, com foco no público jovem e uma postura mais flexível quanto à estética, vestuário e expressões culturais.

Paralelamente às investigações, o ambiente político voltou a aquecer com novos episódios envolvendo Nikolas Ferreira, deputado federal e uma das figuras mais influentes da direita nas redes sociais. Nesta semana, Nikolas voltou a ser questionado após a divulgação de um vídeo sobre o sistema de pagamentos Pix, classificado por críticos como conteúdo enganoso, o que levou a pedidos formais de investigação por parte de autoridades.
Embora não exista qualquer ligação direta comprovada entre o caso de Fabiano Zettel e a atuação recente de Nikolas Ferreira, analistas políticos ouvidos pela imprensa avaliam que a divulgação do vídeo pode funcionar como uma espécie de “cortina de fumo”, num momento em que investigações sensíveis atingem financiadores e figuras próximas do campo conservador. A leitura é de que episódios de forte repercussão digital acabam por desviar o foco do debate público, deslocando a atenção para polémicas paralelas.
Para esses analistas, a coincidência temporal chama a atenção, sobretudo porque surge num contexto em que a direita enfrenta desgaste com investigações envolvendo empresários, relações familiares e financiamento político. O uso recorrente das redes sociais para tensionar o debate, segundo essa avaliação, tem sido uma estratégia frequente em momentos de pressão judicial ou institucional.
Ainda que não haja confirmação de coordenação entre os acontecimentos, o conjunto de episódios reforça o debate sobre comunicação política, responsabilidade pública e o impacto das narrativas digitais em períodos de crise. As investigações seguem em curso, enquanto o cenário político permanece marcado por disputas de atenção e versões concorrentes dos factos.
